terça-feira, 11 de novembro de 2008

O exercício da dúvida

EU E ELA

Você quis terminar
Pediu que fosse assim
Trancou a porta e fechou as janelas
Pra não pensar mais em mim
E eu te pergunto:
Pra que?

Não vou te procurar
Vou deixar você me esquecer
Pra encontrar a pessoa mais certa
Que possa lhe amar
Bem longe de mim
E eu te pergunto:
Por que?

Entendo ou não entendo nada?
Estendo a mão sem dar um beijo
Escrevo as últimas palavras
Enfrento ou finjo que não vejo?
Espelho meu, desiste dessa cara
Esqueço ou fico com desejo?
Espero mais ou devo apagá-la?
Entrego a ela todos os segredos

Ela que era tudo para mim
Foi tudo para mim
(Fiz) tudo
Tudo

Você quis terminar
Pediu que fosse assim
Trancou a porta e fechou as janelas
Pra não pensar mais em mim
E eu te pergunto:
Por que?

Entendo ou não entendo nada?
Estendo a mão sem dar um beijo
Espelho meu, desiste dessa cara
Entrego a ela todos os segredos

Ela que era tudo para mim
Foi tudo para mim
Foi tudo
Eu quis tudo
Tudo para mim

Ela que era tudo para mim

Mas nem tudo para mim
Sumiu com ela
Já que ela
É quem ficou sem mim

(Nando Reis)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O exercício cantor II

Cançãozinha II

ó, bem-amadinha,
eu pego o teu nome
denso como só o
que sedimentasse
ao longo de um ano

eu pego o teu nome
delicadamente
cheio do pavor
de rachá-lo ou mesmo
de até estilhaçá-lo

e corto, com ele,
minha face toda
componho desenhos
nervosos, rupestres
escorrendo informes

eu per-corro os riscos
e dos riscos correm
os rios escarlates
escaldantes
o tridente, as lavas.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O exercício cantor I

Cançãozinha I

ó, minha
tontinha de passarinho:

sois poeta, sois da lua,
voais nua - mas sem norte,
sois das sortes, das fortunas;
eu sou amigo das árvores
e das raízes profundas,
sou das ruínas, do arado,
sou dos sempres e dos nuncas,
das almas rústicas chãs
- sou tumba.

O exercício escuro

Eu me prometi não passar mais Clarice. E olha eu aqui...

"Em outro apartamento uma senhora teve tal perversa ternura pela pequenez da mluher africana que - sendo tão melhor prevenir que remediar - jamais se deveria deixar Pequena Flor sozinha com a ternura da senhora. Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho."

(Clarice Lispector. trechinho de "A menor mulher do mundo" in Laços de família)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O exercício elegíaco

1,1

CYNTHIA prima suis miserum me cepit
ocellis, contactum nullis ante cupidinibus.
dtum mihi constantis deiecit lumina fastus
et caput impositis pressit Amor pedibus
donec me docuit castas odisse puellas
improbus, et nullo uiuere consilio. et mihi
iam toto furor hic non deficit anno, cum
tamen aduersos cogor habere deos.
Milanion nullos fugiendo, Tulle, labores
saeuitiam durae contudit Iasidos. nam
modo Partheniis amens errabat in antris,
ibat et hirsutas ille uidere feras; ille etiam
Hylaei percussus uulnere rami saucius
Arcadiis rupibus ingemuit. ergo uelocem
potuit domuisse puellam: tantum in amore
preces et bene facta ualent.
in me tardus Amor non ullas cogitat artis,
nec meminit notas, ut prius, ire uias. at
uos, deductae quibus est fallacia lunae et
labor in magicis sacra piare focis, en
agedum dommae mentem conuertite
nostrae, et facite illa meo palleat ore
magis! tunc ego crediderim uobis et sidera
et amnis posse Cytaeines ducere
carminibus. et uos, qui sero lapsum
reuocatis, amici, quaerite non sani pectoris
auxilia. fortiter et ferrum saeuos patiemur
et ignis, sit modo libertas quae uelit ira
loqui. ferte per extremas gentis et ferte per
undas, qua non ulla meum femina norit
iter: uos remanete, quibus facili deus
annuit aure, sitis et in tuto semper amore
pares. in me nostra Venus noctes exercet
amaras,
et nullo uacuus tempore defit Amor. hoc,
moneo, uitate malum: sua quemque
moretur cura, neque assueto mutet amore
locum. quod si quis monitis tardas
aduerterit auris,
heu referet quanto uerba dolore mea!


Cíntia foi a primeira que me capturou, mísero , com seus olhos; eu nunca antes atingido por nenhum desejo. Então, o Amor arrebatou-me meu olhar de arrogância inabalável e, debaixo de seus pés, pressionou minha cabeça até que me ensinou a odiar castas meninas e, ímprobo, a viver sem prudência. E agora esta paixão não me abandona há um ano enquanto sou obrigado a ter adversos os deuses. Ó Tulo, Milanião, por não evitar nenhum trabalho, venceu a maldade da cruel Iáside, tresloucado errava nas grutas Partênias e, de novo, ia provocar as feras selvagens quando, atingido por golpe de clava de Hileu, ferido, gemeu nos rochedos da Arcádia; portanto pôde domar a veloz menina: tanto no amor valem preces e benefícios. Em mim, o tardo amor urde nenhuma astúcia e não se lembra de seguir, como antes, seus conhecidos caminhos.
Quanto a vós, que tendes o poder de enganar, fazendo a lua cair do céu e a quem é dever consagrar ritos em altares de magia, eia, mudai o coração de minha menina e fazei que ela empalideça mais do que meu rosto! Então eu acreditarei em vós, que podeis ouvir estrelas e rios com feitiços da citana. E vós, amigos, que tarde recordais minha queda, procurai auxílios para um coração enfermo e, valorosamente, suportarei o ferro e o fogo cruéis desde que tenha a liberdade de falar o que a minha ira quiser. Levai-me aos longínquos povos, levai-me através das ondas por onde nenhuma mulher conheça meu caminho: vós a quem o deus aprovou com propício ouvido, permanecei e sedes sempre, no amor seguro, companheiros. Nossa Vênus trama contra mim amaras noites, o Amor ocioso não me falta nunca. Meu mal, advirto, evitai: que própria preocupação aflija a cada um e que sua afeição não mude de lugar, tendo se acostumado ao Amor, mas, se alguém desse ouvidos surdos aos meus conselhos Ah! com quanta dor lembraria minhas palavras!

2,12

QVICVMQVE ille fuit, puerum qui pinxit
Amorem,
nonne putas miras hunc habuisse
manus? is primum vidit sine sensu vivere
amantis, et levibus curis magna perire
bona. idem non frustra ventosas addidit
alas, fecit et humano corde volare deum:
scilicet alterna quoniam iactamur in unda,
nostraque non ullis permanet aura locis.
et merito hamatis manus est armata
sagittis, et pharetra ex umero Cnosia
utroque iacet: ante ferit quoniam, tuti
quam cernimus hostem, nec quisquam ex
illo vulnere sanus abit. in me tela manent,
manet et puerilis imago: sed certe
pennas perdidit ille suas; evolat heu
nostro quoniam de pectore nusquam,
assiduusque meo sanguine bella gerit.
quid tibi iucundum est siccis habitare
medullis? si pudor est, alio traice tela
una! intactos isto satius temptare veneno:
non ego, sed tenuis vapulat umbra mea.
quam si perdideris, quis erit qui talia
cantet, (haec mea Musa levis gloria
magna tua est), qui caput et digitos et
lumina nigra puellae, et canat ut soleant
molliter ire pedes?


Quem quer que seja que pintou o Amor menino, não julgas que ele tivesse mãos admiráveis? Primeiro viu os amantes viver sem juízo e os grandes bens perecer sem cuidados. O mesmo não ao acaso adicionou asas ligeiras e fez o deus voar no coração humano: É evidente, porque somos lançados em ondas alternadas e nosso ar não se conserva em lugar algum e com razão suas mãos são armadas com setas aduncas e de seu ombro pende aljava de Gnossos: Porque feriu, antes que seguros discirnamos inimigo, ninguém se livra desta cicatriz. Em mim as setas permanecem, permanece a imagem pueril: mas, certamente, ele perdeu suas asas, porque, ah!, não voa de meu peito para lugar algum e assíduo em meu sangue gere guerras. Por que te é agradável habitar em um coração ressequido? Se existe a honra, lance em outro tuas setas! É melhor atingir pessoas sãs com este veneno: Não sou eu, mas minha tênue sombra está sendo açoitada. Tanto que se me perderes, quem será que irá cantar tais coisas, essa, minha Musa suave, é tua maior glória: Aquele que cante a cabeça, os dedos, os olhos negros de menina e como seus pés irão seguir suavemente?

(Propércio, do livro de elegias de Propércio - tradução de Paulo Martins)

sábado, 4 de outubro de 2008

Exercício religioso

CÂNTICO DOS CÂNTICOS

CANTO I

O que é de Salomão, o Cântico dos cânticos.

Que me beije dos beijos de sua boca,
Melhores que vinho são teus seios

Melhor que aromas todos
É o perfumteu teu de mirto,
Mirto a se exalar é teu nome,
E é por isso que as meninas te adoraram,

Te arrastaram,
E tal corremos nós atrás de ti,
Buscando o aroma do teu mirto.
Ao aposento seu o rei me conduziu,
E em ti nos vamos inspirar e divertir.
Teu seio mais que o vinho nós amamos,
Por ti se enamorou a perfeição.

Filhas de Jerusalém, negra sou eu e bela,
Como as tendas de Qdar, e como as alfaias
De rei Salomão.

Não me fiteis assim por eu estar
Enegrecida,
É que de frente contemplou-me o sol.
Brigaram comigo os filhos de minha mãe.
E as vinhas me puseram a guardar,
E minhas vinhas não guardei.

Fala-me, ó tu, a quem minha alma adora:
Onde apascentas o gado, e onde ao meio-dia tu repousas?
Não fique eu pervagando
Pelos campos dos amigos teus.

Se não te conheces a ti mesma, ó bela
Entre as mulheres,
à trilha dos rebanhos vai,
E ao pé das tendas pasorais,
Dá de comer então às tuas ovelhas.

Á égua minha, no carro do faraó,
Te vejo muito parecida, amada.

Por que as tuas maçãs do rosto são duas aves,
Por que têm brilhos as contas do teu colar?

Nós áureos simulacros vamos como adornos
Para ti fazer com madrepérolas de prata cravejada.

Só quando em seu divã
Se inclina o rei
É que meu nardo lhe oefereço a que respire.

Bálsamo de um frasco se escapando é
Meu amado,
E entre os seios meus
A sua morada ele vai ter.

Cachos de cipro
Para mim são meu amado
Entre as parreiras de Engadi.

Mira, querida, como és bela,
Bela, ó minha amada, tu és,
E teus olhos são pombas.

Olha, querido, irmão de mim, és belo
E tua sombra é teu agora,
Junto à cama, e bem na frente.

De cedro são as vigas do lar nosso,
E de cipreste as coberturas.

(Rei Salomão, in Bíblia Sagrada - tradução do grego de Antonio Medina)

sábado, 30 de agosto de 2008

O exercício telúrico

MINEIRINHO


É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: 'O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.' Respondi-lhe que 'mais do que muita gente que não matou'.

Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.

Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordem, e com horror digo tarde demais - vinte e oito anos depois que
Mineirinho nasceu - que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for preciso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente - não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.

Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho - essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar 'feito doido' de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador - em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime . Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.

Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo - uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muita séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.

Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.

O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno".

(Clarice mais uma vez - "Para não esquecer" - 1987)