EU E ELA
Você quis terminar
Pediu que fosse assim
Trancou a porta e fechou as janelas
Pra não pensar mais em mim
E eu te pergunto:
Pra que?
Não vou te procurar
Vou deixar você me esquecer
Pra encontrar a pessoa mais certa
Que possa lhe amar
Bem longe de mim
E eu te pergunto:
Por que?
Entendo ou não entendo nada?
Estendo a mão sem dar um beijo
Escrevo as últimas palavras
Enfrento ou finjo que não vejo?
Espelho meu, desiste dessa cara
Esqueço ou fico com desejo?
Espero mais ou devo apagá-la?
Entrego a ela todos os segredos
Ela que era tudo para mim
Foi tudo para mim
(Fiz) tudo
Tudo
Você quis terminar
Pediu que fosse assim
Trancou a porta e fechou as janelas
Pra não pensar mais em mim
E eu te pergunto:
Por que?
Entendo ou não entendo nada?
Estendo a mão sem dar um beijo
Espelho meu, desiste dessa cara
Entrego a ela todos os segredos
Ela que era tudo para mim
Foi tudo para mim
Foi tudo
Eu quis tudo
Tudo para mim
Ela que era tudo para mim
Mas nem tudo para mim
Sumiu com ela
Já que ela
É quem ficou sem mim
(Nando Reis)
terça-feira, 11 de novembro de 2008
terça-feira, 21 de outubro de 2008
O exercício cantor II
Cançãozinha II
ó, bem-amadinha,
eu pego o teu nome
denso como só o
que sedimentasse
ao longo de um ano
eu pego o teu nome
delicadamente
cheio do pavor
de rachá-lo ou mesmo
de até estilhaçá-lo
e corto, com ele,
minha face toda
componho desenhos
nervosos, rupestres
escorrendo informes
eu per-corro os riscos
e dos riscos correm
os rios escarlates
escaldantes
o tridente, as lavas.
ó, bem-amadinha,
eu pego o teu nome
denso como só o
que sedimentasse
ao longo de um ano
eu pego o teu nome
delicadamente
cheio do pavor
de rachá-lo ou mesmo
de até estilhaçá-lo
e corto, com ele,
minha face toda
componho desenhos
nervosos, rupestres
escorrendo informes
eu per-corro os riscos
e dos riscos correm
os rios escarlates
escaldantes
o tridente, as lavas.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
O exercício cantor I
Cançãozinha I
ó, minha
tontinha de passarinho:
sois poeta, sois da lua,
voais nua - mas sem norte,
sois das sortes, das fortunas;
eu sou amigo das árvores
e das raízes profundas,
sou das ruínas, do arado,
sou dos sempres e dos nuncas,
das almas rústicas chãs
- sou tumba.
ó, minha
tontinha de passarinho:
sois poeta, sois da lua,
voais nua - mas sem norte,
sois das sortes, das fortunas;
eu sou amigo das árvores
e das raízes profundas,
sou das ruínas, do arado,
sou dos sempres e dos nuncas,
das almas rústicas chãs
- sou tumba.
O exercício escuro
Eu me prometi não passar mais Clarice. E olha eu aqui...
"Em outro apartamento uma senhora teve tal perversa ternura pela pequenez da mluher africana que - sendo tão melhor prevenir que remediar - jamais se deveria deixar Pequena Flor sozinha com a ternura da senhora. Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho."
(Clarice Lispector. trechinho de "A menor mulher do mundo" in Laços de família)
"Em outro apartamento uma senhora teve tal perversa ternura pela pequenez da mluher africana que - sendo tão melhor prevenir que remediar - jamais se deveria deixar Pequena Flor sozinha com a ternura da senhora. Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho."
(Clarice Lispector. trechinho de "A menor mulher do mundo" in Laços de família)
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
O exercício elegíaco
1,1
CYNTHIA prima suis miserum me cepit
ocellis, contactum nullis ante cupidinibus.
dtum mihi constantis deiecit lumina fastus
et caput impositis pressit Amor pedibus
donec me docuit castas odisse puellas
improbus, et nullo uiuere consilio. et mihi
iam toto furor hic non deficit anno, cum
tamen aduersos cogor habere deos.
Milanion nullos fugiendo, Tulle, labores
saeuitiam durae contudit Iasidos. nam
modo Partheniis amens errabat in antris,
ibat et hirsutas ille uidere feras; ille etiam
Hylaei percussus uulnere rami saucius
Arcadiis rupibus ingemuit. ergo uelocem
potuit domuisse puellam: tantum in amore
preces et bene facta ualent.
in me tardus Amor non ullas cogitat artis,
nec meminit notas, ut prius, ire uias. at
uos, deductae quibus est fallacia lunae et
labor in magicis sacra piare focis, en
agedum dommae mentem conuertite
nostrae, et facite illa meo palleat ore
magis! tunc ego crediderim uobis et sidera
et amnis posse Cytaeines ducere
carminibus. et uos, qui sero lapsum
reuocatis, amici, quaerite non sani pectoris
auxilia. fortiter et ferrum saeuos patiemur
et ignis, sit modo libertas quae uelit ira
loqui. ferte per extremas gentis et ferte per
undas, qua non ulla meum femina norit
iter: uos remanete, quibus facili deus
annuit aure, sitis et in tuto semper amore
pares. in me nostra Venus noctes exercet
amaras,
et nullo uacuus tempore defit Amor. hoc,
moneo, uitate malum: sua quemque
moretur cura, neque assueto mutet amore
locum. quod si quis monitis tardas
aduerterit auris,
heu referet quanto uerba dolore mea!
Cíntia foi a primeira que me capturou, mísero , com seus olhos; eu nunca antes atingido por nenhum desejo. Então, o Amor arrebatou-me meu olhar de arrogância inabalável e, debaixo de seus pés, pressionou minha cabeça até que me ensinou a odiar castas meninas e, ímprobo, a viver sem prudência. E agora esta paixão não me abandona há um ano enquanto sou obrigado a ter adversos os deuses. Ó Tulo, Milanião, por não evitar nenhum trabalho, venceu a maldade da cruel Iáside, tresloucado errava nas grutas Partênias e, de novo, ia provocar as feras selvagens quando, atingido por golpe de clava de Hileu, ferido, gemeu nos rochedos da Arcádia; portanto pôde domar a veloz menina: tanto no amor valem preces e benefícios. Em mim, o tardo amor urde nenhuma astúcia e não se lembra de seguir, como antes, seus conhecidos caminhos.
Quanto a vós, que tendes o poder de enganar, fazendo a lua cair do céu e a quem é dever consagrar ritos em altares de magia, eia, mudai o coração de minha menina e fazei que ela empalideça mais do que meu rosto! Então eu acreditarei em vós, que podeis ouvir estrelas e rios com feitiços da citana. E vós, amigos, que tarde recordais minha queda, procurai auxílios para um coração enfermo e, valorosamente, suportarei o ferro e o fogo cruéis desde que tenha a liberdade de falar o que a minha ira quiser. Levai-me aos longínquos povos, levai-me através das ondas por onde nenhuma mulher conheça meu caminho: vós a quem o deus aprovou com propício ouvido, permanecei e sedes sempre, no amor seguro, companheiros. Nossa Vênus trama contra mim amaras noites, o Amor ocioso não me falta nunca. Meu mal, advirto, evitai: que própria preocupação aflija a cada um e que sua afeição não mude de lugar, tendo se acostumado ao Amor, mas, se alguém desse ouvidos surdos aos meus conselhos Ah! com quanta dor lembraria minhas palavras!
2,12
QVICVMQVE ille fuit, puerum qui pinxit
Amorem,
nonne putas miras hunc habuisse
manus? is primum vidit sine sensu vivere
amantis, et levibus curis magna perire
bona. idem non frustra ventosas addidit
alas, fecit et humano corde volare deum:
scilicet alterna quoniam iactamur in unda,
nostraque non ullis permanet aura locis.
et merito hamatis manus est armata
sagittis, et pharetra ex umero Cnosia
utroque iacet: ante ferit quoniam, tuti
quam cernimus hostem, nec quisquam ex
illo vulnere sanus abit. in me tela manent,
manet et puerilis imago: sed certe
pennas perdidit ille suas; evolat heu
nostro quoniam de pectore nusquam,
assiduusque meo sanguine bella gerit.
quid tibi iucundum est siccis habitare
medullis? si pudor est, alio traice tela
una! intactos isto satius temptare veneno:
non ego, sed tenuis vapulat umbra mea.
quam si perdideris, quis erit qui talia
cantet, (haec mea Musa levis gloria
magna tua est), qui caput et digitos et
lumina nigra puellae, et canat ut soleant
molliter ire pedes?
Quem quer que seja que pintou o Amor menino, não julgas que ele tivesse mãos admiráveis? Primeiro viu os amantes viver sem juízo e os grandes bens perecer sem cuidados. O mesmo não ao acaso adicionou asas ligeiras e fez o deus voar no coração humano: É evidente, porque somos lançados em ondas alternadas e nosso ar não se conserva em lugar algum e com razão suas mãos são armadas com setas aduncas e de seu ombro pende aljava de Gnossos: Porque feriu, antes que seguros discirnamos inimigo, ninguém se livra desta cicatriz. Em mim as setas permanecem, permanece a imagem pueril: mas, certamente, ele perdeu suas asas, porque, ah!, não voa de meu peito para lugar algum e assíduo em meu sangue gere guerras. Por que te é agradável habitar em um coração ressequido? Se existe a honra, lance em outro tuas setas! É melhor atingir pessoas sãs com este veneno: Não sou eu, mas minha tênue sombra está sendo açoitada. Tanto que se me perderes, quem será que irá cantar tais coisas, essa, minha Musa suave, é tua maior glória: Aquele que cante a cabeça, os dedos, os olhos negros de menina e como seus pés irão seguir suavemente?
(Propércio, do livro de elegias de Propércio - tradução de Paulo Martins)
CYNTHIA prima suis miserum me cepit
ocellis, contactum nullis ante cupidinibus.
dtum mihi constantis deiecit lumina fastus
et caput impositis pressit Amor pedibus
donec me docuit castas odisse puellas
improbus, et nullo uiuere consilio. et mihi
iam toto furor hic non deficit anno, cum
tamen aduersos cogor habere deos.
Milanion nullos fugiendo, Tulle, labores
saeuitiam durae contudit Iasidos. nam
modo Partheniis amens errabat in antris,
ibat et hirsutas ille uidere feras; ille etiam
Hylaei percussus uulnere rami saucius
Arcadiis rupibus ingemuit. ergo uelocem
potuit domuisse puellam: tantum in amore
preces et bene facta ualent.
in me tardus Amor non ullas cogitat artis,
nec meminit notas, ut prius, ire uias. at
uos, deductae quibus est fallacia lunae et
labor in magicis sacra piare focis, en
agedum dommae mentem conuertite
nostrae, et facite illa meo palleat ore
magis! tunc ego crediderim uobis et sidera
et amnis posse Cytaeines ducere
carminibus. et uos, qui sero lapsum
reuocatis, amici, quaerite non sani pectoris
auxilia. fortiter et ferrum saeuos patiemur
et ignis, sit modo libertas quae uelit ira
loqui. ferte per extremas gentis et ferte per
undas, qua non ulla meum femina norit
iter: uos remanete, quibus facili deus
annuit aure, sitis et in tuto semper amore
pares. in me nostra Venus noctes exercet
amaras,
et nullo uacuus tempore defit Amor. hoc,
moneo, uitate malum: sua quemque
moretur cura, neque assueto mutet amore
locum. quod si quis monitis tardas
aduerterit auris,
heu referet quanto uerba dolore mea!
Cíntia foi a primeira que me capturou, mísero , com seus olhos; eu nunca antes atingido por nenhum desejo. Então, o Amor arrebatou-me meu olhar de arrogância inabalável e, debaixo de seus pés, pressionou minha cabeça até que me ensinou a odiar castas meninas e, ímprobo, a viver sem prudência. E agora esta paixão não me abandona há um ano enquanto sou obrigado a ter adversos os deuses. Ó Tulo, Milanião, por não evitar nenhum trabalho, venceu a maldade da cruel Iáside, tresloucado errava nas grutas Partênias e, de novo, ia provocar as feras selvagens quando, atingido por golpe de clava de Hileu, ferido, gemeu nos rochedos da Arcádia; portanto pôde domar a veloz menina: tanto no amor valem preces e benefícios. Em mim, o tardo amor urde nenhuma astúcia e não se lembra de seguir, como antes, seus conhecidos caminhos.
Quanto a vós, que tendes o poder de enganar, fazendo a lua cair do céu e a quem é dever consagrar ritos em altares de magia, eia, mudai o coração de minha menina e fazei que ela empalideça mais do que meu rosto! Então eu acreditarei em vós, que podeis ouvir estrelas e rios com feitiços da citana. E vós, amigos, que tarde recordais minha queda, procurai auxílios para um coração enfermo e, valorosamente, suportarei o ferro e o fogo cruéis desde que tenha a liberdade de falar o que a minha ira quiser. Levai-me aos longínquos povos, levai-me através das ondas por onde nenhuma mulher conheça meu caminho: vós a quem o deus aprovou com propício ouvido, permanecei e sedes sempre, no amor seguro, companheiros. Nossa Vênus trama contra mim amaras noites, o Amor ocioso não me falta nunca. Meu mal, advirto, evitai: que própria preocupação aflija a cada um e que sua afeição não mude de lugar, tendo se acostumado ao Amor, mas, se alguém desse ouvidos surdos aos meus conselhos Ah! com quanta dor lembraria minhas palavras!
2,12
QVICVMQVE ille fuit, puerum qui pinxit
Amorem,
nonne putas miras hunc habuisse
manus? is primum vidit sine sensu vivere
amantis, et levibus curis magna perire
bona. idem non frustra ventosas addidit
alas, fecit et humano corde volare deum:
scilicet alterna quoniam iactamur in unda,
nostraque non ullis permanet aura locis.
et merito hamatis manus est armata
sagittis, et pharetra ex umero Cnosia
utroque iacet: ante ferit quoniam, tuti
quam cernimus hostem, nec quisquam ex
illo vulnere sanus abit. in me tela manent,
manet et puerilis imago: sed certe
pennas perdidit ille suas; evolat heu
nostro quoniam de pectore nusquam,
assiduusque meo sanguine bella gerit.
quid tibi iucundum est siccis habitare
medullis? si pudor est, alio traice tela
una! intactos isto satius temptare veneno:
non ego, sed tenuis vapulat umbra mea.
quam si perdideris, quis erit qui talia
cantet, (haec mea Musa levis gloria
magna tua est), qui caput et digitos et
lumina nigra puellae, et canat ut soleant
molliter ire pedes?
Quem quer que seja que pintou o Amor menino, não julgas que ele tivesse mãos admiráveis? Primeiro viu os amantes viver sem juízo e os grandes bens perecer sem cuidados. O mesmo não ao acaso adicionou asas ligeiras e fez o deus voar no coração humano: É evidente, porque somos lançados em ondas alternadas e nosso ar não se conserva em lugar algum e com razão suas mãos são armadas com setas aduncas e de seu ombro pende aljava de Gnossos: Porque feriu, antes que seguros discirnamos inimigo, ninguém se livra desta cicatriz. Em mim as setas permanecem, permanece a imagem pueril: mas, certamente, ele perdeu suas asas, porque, ah!, não voa de meu peito para lugar algum e assíduo em meu sangue gere guerras. Por que te é agradável habitar em um coração ressequido? Se existe a honra, lance em outro tuas setas! É melhor atingir pessoas sãs com este veneno: Não sou eu, mas minha tênue sombra está sendo açoitada. Tanto que se me perderes, quem será que irá cantar tais coisas, essa, minha Musa suave, é tua maior glória: Aquele que cante a cabeça, os dedos, os olhos negros de menina e como seus pés irão seguir suavemente?
(Propércio, do livro de elegias de Propércio - tradução de Paulo Martins)
sábado, 4 de outubro de 2008
Exercício religioso
CÂNTICO DOS CÂNTICOS
CANTO I
O que é de Salomão, o Cântico dos cânticos.
Que me beije dos beijos de sua boca,
Melhores que vinho são teus seios
Melhor que aromas todos
É o perfumteu teu de mirto,
Mirto a se exalar é teu nome,
E é por isso que as meninas te adoraram,
Te arrastaram,
E tal corremos nós atrás de ti,
Buscando o aroma do teu mirto.
Ao aposento seu o rei me conduziu,
E em ti nos vamos inspirar e divertir.
Teu seio mais que o vinho nós amamos,
Por ti se enamorou a perfeição.
Filhas de Jerusalém, negra sou eu e bela,
Como as tendas de Qdar, e como as alfaias
De rei Salomão.
Não me fiteis assim por eu estar
Enegrecida,
É que de frente contemplou-me o sol.
Brigaram comigo os filhos de minha mãe.
E as vinhas me puseram a guardar,
E minhas vinhas não guardei.
Fala-me, ó tu, a quem minha alma adora:
Onde apascentas o gado, e onde ao meio-dia tu repousas?
Não fique eu pervagando
Pelos campos dos amigos teus.
Se não te conheces a ti mesma, ó bela
Entre as mulheres,
à trilha dos rebanhos vai,
E ao pé das tendas pasorais,
Dá de comer então às tuas ovelhas.
Á égua minha, no carro do faraó,
Te vejo muito parecida, amada.
Por que as tuas maçãs do rosto são duas aves,
Por que têm brilhos as contas do teu colar?
Nós áureos simulacros vamos como adornos
Para ti fazer com madrepérolas de prata cravejada.
Só quando em seu divã
Se inclina o rei
É que meu nardo lhe oefereço a que respire.
Bálsamo de um frasco se escapando é
Meu amado,
E entre os seios meus
A sua morada ele vai ter.
Cachos de cipro
Para mim são meu amado
Entre as parreiras de Engadi.
Mira, querida, como és bela,
Bela, ó minha amada, tu és,
E teus olhos são pombas.
Olha, querido, irmão de mim, és belo
E tua sombra é teu agora,
Junto à cama, e bem na frente.
De cedro são as vigas do lar nosso,
E de cipreste as coberturas.
(Rei Salomão, in Bíblia Sagrada - tradução do grego de Antonio Medina)
CANTO I
O que é de Salomão, o Cântico dos cânticos.
Que me beije dos beijos de sua boca,
Melhores que vinho são teus seios
Melhor que aromas todos
É o perfumteu teu de mirto,
Mirto a se exalar é teu nome,
E é por isso que as meninas te adoraram,
Te arrastaram,
E tal corremos nós atrás de ti,
Buscando o aroma do teu mirto.
Ao aposento seu o rei me conduziu,
E em ti nos vamos inspirar e divertir.
Teu seio mais que o vinho nós amamos,
Por ti se enamorou a perfeição.
Filhas de Jerusalém, negra sou eu e bela,
Como as tendas de Qdar, e como as alfaias
De rei Salomão.
Não me fiteis assim por eu estar
Enegrecida,
É que de frente contemplou-me o sol.
Brigaram comigo os filhos de minha mãe.
E as vinhas me puseram a guardar,
E minhas vinhas não guardei.
Fala-me, ó tu, a quem minha alma adora:
Onde apascentas o gado, e onde ao meio-dia tu repousas?
Não fique eu pervagando
Pelos campos dos amigos teus.
Se não te conheces a ti mesma, ó bela
Entre as mulheres,
à trilha dos rebanhos vai,
E ao pé das tendas pasorais,
Dá de comer então às tuas ovelhas.
Á égua minha, no carro do faraó,
Te vejo muito parecida, amada.
Por que as tuas maçãs do rosto são duas aves,
Por que têm brilhos as contas do teu colar?
Nós áureos simulacros vamos como adornos
Para ti fazer com madrepérolas de prata cravejada.
Só quando em seu divã
Se inclina o rei
É que meu nardo lhe oefereço a que respire.
Bálsamo de um frasco se escapando é
Meu amado,
E entre os seios meus
A sua morada ele vai ter.
Cachos de cipro
Para mim são meu amado
Entre as parreiras de Engadi.
Mira, querida, como és bela,
Bela, ó minha amada, tu és,
E teus olhos são pombas.
Olha, querido, irmão de mim, és belo
E tua sombra é teu agora,
Junto à cama, e bem na frente.
De cedro são as vigas do lar nosso,
E de cipreste as coberturas.
(Rei Salomão, in Bíblia Sagrada - tradução do grego de Antonio Medina)
sábado, 30 de agosto de 2008
O exercício telúrico
MINEIRINHO
É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: 'O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.' Respondi-lhe que 'mais do que muita gente que não matou'.
Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordem, e com horror digo tarde demais - vinte e oito anos depois que
Mineirinho nasceu - que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for preciso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente - não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho - essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar 'feito doido' de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador - em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime . Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo - uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muita séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno".
(Clarice mais uma vez - "Para não esquecer" - 1987)
É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: 'O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.' Respondi-lhe que 'mais do que muita gente que não matou'.
Por que? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordem, e com horror digo tarde demais - vinte e oito anos depois que
Mineirinho nasceu - que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for preciso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente - não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho - essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar 'feito doido' de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador - em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime . Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranqüila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo - uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muita séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno".
(Clarice mais uma vez - "Para não esquecer" - 1987)
O exercício de quebrar ovos
AMOR
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.
Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.
As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.
Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.
Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.
Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. O sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.
Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.
Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.
Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.
— O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
Acabara-se a vertigem de bondade.
E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.
(Clarice de novo - "Laços de Família")
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.
Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.
As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.
Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.
Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.
Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. O sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.
Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.
Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.
Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.
Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.
Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.
— O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
Acabara-se a vertigem de bondade.
E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.
(Clarice de novo - "Laços de Família")
O exercício da paixão
O "IDAP"
Creio ter sido em casa de Fernando Sabino, há uns vinte verões atrás que, discorrendo a conversa sobre o amor, entraram de repente os circunstantes em considerações fenomenológicas da maior pertinência, a propósito desse caso patológico que é um homem apaixonado. O tipo foi, de início, estudado sob todos os ângulos; e como a maioria dos circunstantes falava com conhecimento de causa – e quanta! – chegou-se a várias conclusões sobre as quais não me estenderei de medo que o assunto vaze do retângulo a que tenho direito nesta página.
Que o homem apaixonado é um doente, disso não nos ficou a menor dúvida. Doente mesmo no duro, tal um portador do mal de Hansen ou da moléstia de Basedow. Como sob a ação de um vírus qualquer letal, seu cérebro começa a funcionar de um modo totalmente peculiar. Torna-se ele, para princípio de conversa, mais policial que um agente da antiga Gestapo, para não trazer o assunto mais próximo, passando a julgar o ser amado, quando fora do seu campo visual (e por vezes também dentro dele) capaz de qualquer traição. Para o homem apaixonado, a mulher amada é o centro do mundo e da atenção geral. Todos os homens, por princípio, dão em cima dela. Se ela olha não importa quão casualmente para um outro varão na rua, está dando bola. Se não olhou é porque sofreu impacto: não ama o bastante para enfrentar com naturalidade a cobiça do sexo oposto; trata-se de uma fraca, uma venal, uma completa... – nem é bom falar! Enfim, para o homem apaixonado a mulher amada é, na fase da paixão, um misto de Bernadette e Lucrécia Bórgia. Nada mais irreal que a sua realidade, pois que se tem saudade dela em sua presença e há ocasiões em que se quer a sua morte para que se possa ter paz – e não há paz em sua ausência. A mulher amada é o paradoxo vivo, o fogo que arde sem se ver, a ferida que dói e não se sente, o contentamento descontente de que fala Camões que, esse sim, sabia o que era o amor.
A partir de uma diagnose bastante completa do assunto, começou-se a pensar o que se poderia fazer em beneficio do homem apaixonado, esse bateau ivre despenhado na torrente, esse sonâmbulo a vagar no espaço cósmico, essa nota extrema e lancinante acima de todas as pautas da emoção humana. Ficou de início deliberado que ele deveria usar uma qualquer marca distintiva: talvez um sapato de cada cor, ou uma gravata que acendesse como a dos mágicos, ou andar sobre pernas de pau... – enfim, uma característica que o tornasse conspícuo aos olhos dos míseros mortais entre os quais é obrigado a viver. Acabamos optando por uma bengalinha como a dos cegos – só que, em vez de branca, vermelha, da cor da paixão; pois um dos grandes riscos que corre o homem apaixonado é o tráfego, em meio ao qual transita como se fosse transparente.
Mas ficou verificado que a bengalinha poderia prestar-se a grandes contrafações por parte de inúmeros vigaristas que, sabedores de suas regalias, não hesitariam em obtê-la por meios ilícitos. O melhor, concluímos, seria criar uma nova autarquia, o Instituto dos Apaixonados (com a sigla IDAP), a cujos sócios seria fornecida uma carteirinha; cuja carteirinha daria prioridade em telefones públicos, direito a "espetar" em bares, proteção especial da polícia em caso de briga e uma série de outras prerrogativas, como entrada grátis nos cinemas mais escuros da cidade, direito a expulsar pessoas dos bancos de parques e jardins, e etc.
Mas qual a entidade para caracterizar o homem verdadeiramente apaixonado? E quais as habilitações necessárias à constituição de uma junta de psicólogos capazes de atestar ser uma pessoa portadora da terrível disfunção? Não haveria, aí também, oportunidade para muito nepotismo, muita proteção por fora? E após novas ponderações verificou-se que bastaria um funcionário honesto atrás de um guichê. O Homem Apaixonado chegaria e o funcionário examinaria rapidamente o fundo do seu olho para diagnosticar o chamado olho de peixe, ou seja, meio vidrado. Feito isto, tomar-lhe-ia o pulso ao mesmo tempo que perguntasse: "O senhor se considera realmente apaixonado?" Ao que, o paciente – eu, suponhamos – responderia mais ou menos assim:
– Ah, o senhor quer saber que dia é? São quatro e meia e a primavera está linda. Ela se chama Cíntia...
E cairia para trás, duro e babando.
(Vinícius de Moraes - crônica de "Para uma menina com uma flor")
Creio ter sido em casa de Fernando Sabino, há uns vinte verões atrás que, discorrendo a conversa sobre o amor, entraram de repente os circunstantes em considerações fenomenológicas da maior pertinência, a propósito desse caso patológico que é um homem apaixonado. O tipo foi, de início, estudado sob todos os ângulos; e como a maioria dos circunstantes falava com conhecimento de causa – e quanta! – chegou-se a várias conclusões sobre as quais não me estenderei de medo que o assunto vaze do retângulo a que tenho direito nesta página.
Que o homem apaixonado é um doente, disso não nos ficou a menor dúvida. Doente mesmo no duro, tal um portador do mal de Hansen ou da moléstia de Basedow. Como sob a ação de um vírus qualquer letal, seu cérebro começa a funcionar de um modo totalmente peculiar. Torna-se ele, para princípio de conversa, mais policial que um agente da antiga Gestapo, para não trazer o assunto mais próximo, passando a julgar o ser amado, quando fora do seu campo visual (e por vezes também dentro dele) capaz de qualquer traição. Para o homem apaixonado, a mulher amada é o centro do mundo e da atenção geral. Todos os homens, por princípio, dão em cima dela. Se ela olha não importa quão casualmente para um outro varão na rua, está dando bola. Se não olhou é porque sofreu impacto: não ama o bastante para enfrentar com naturalidade a cobiça do sexo oposto; trata-se de uma fraca, uma venal, uma completa... – nem é bom falar! Enfim, para o homem apaixonado a mulher amada é, na fase da paixão, um misto de Bernadette e Lucrécia Bórgia. Nada mais irreal que a sua realidade, pois que se tem saudade dela em sua presença e há ocasiões em que se quer a sua morte para que se possa ter paz – e não há paz em sua ausência. A mulher amada é o paradoxo vivo, o fogo que arde sem se ver, a ferida que dói e não se sente, o contentamento descontente de que fala Camões que, esse sim, sabia o que era o amor.
A partir de uma diagnose bastante completa do assunto, começou-se a pensar o que se poderia fazer em beneficio do homem apaixonado, esse bateau ivre despenhado na torrente, esse sonâmbulo a vagar no espaço cósmico, essa nota extrema e lancinante acima de todas as pautas da emoção humana. Ficou de início deliberado que ele deveria usar uma qualquer marca distintiva: talvez um sapato de cada cor, ou uma gravata que acendesse como a dos mágicos, ou andar sobre pernas de pau... – enfim, uma característica que o tornasse conspícuo aos olhos dos míseros mortais entre os quais é obrigado a viver. Acabamos optando por uma bengalinha como a dos cegos – só que, em vez de branca, vermelha, da cor da paixão; pois um dos grandes riscos que corre o homem apaixonado é o tráfego, em meio ao qual transita como se fosse transparente.
Mas ficou verificado que a bengalinha poderia prestar-se a grandes contrafações por parte de inúmeros vigaristas que, sabedores de suas regalias, não hesitariam em obtê-la por meios ilícitos. O melhor, concluímos, seria criar uma nova autarquia, o Instituto dos Apaixonados (com a sigla IDAP), a cujos sócios seria fornecida uma carteirinha; cuja carteirinha daria prioridade em telefones públicos, direito a "espetar" em bares, proteção especial da polícia em caso de briga e uma série de outras prerrogativas, como entrada grátis nos cinemas mais escuros da cidade, direito a expulsar pessoas dos bancos de parques e jardins, e etc.
Mas qual a entidade para caracterizar o homem verdadeiramente apaixonado? E quais as habilitações necessárias à constituição de uma junta de psicólogos capazes de atestar ser uma pessoa portadora da terrível disfunção? Não haveria, aí também, oportunidade para muito nepotismo, muita proteção por fora? E após novas ponderações verificou-se que bastaria um funcionário honesto atrás de um guichê. O Homem Apaixonado chegaria e o funcionário examinaria rapidamente o fundo do seu olho para diagnosticar o chamado olho de peixe, ou seja, meio vidrado. Feito isto, tomar-lhe-ia o pulso ao mesmo tempo que perguntasse: "O senhor se considera realmente apaixonado?" Ao que, o paciente – eu, suponhamos – responderia mais ou menos assim:
– Ah, o senhor quer saber que dia é? São quatro e meia e a primavera está linda. Ela se chama Cíntia...
E cairia para trás, duro e babando.
(Vinícius de Moraes - crônica de "Para uma menina com uma flor")
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
O exercício da dissertatividade II
POEMA RELATIVO
Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
tem um regato (até quieto o regato).
Não tem pássaros, que pena!
Mas os coqueiros fazem,
quando o vento passa,
um barulho que às vezes parece
bate-bate de asas.
Supõe, ó bem-amada,
se o vento sopra,
podem vir borboletas
à procura das minhas jarras
onde há flores debruçadas,
tão debruçadas que parecem escutar.
Todos os homens têm seus crentes,
ó bem-amada:
- os que pregam o amor ao próximo
e os que pregam a morte dele.
Mas tudo é pequeno
e ligeiro no mundo, ó amada.
Só o clamor dos desgraçados
é cada vez mais imenso!
Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
tem um regato até manso.
E os teus passos podem ir devagar
pelos caminhos:
aqui não há inquietação
de atravessar o asfalto.
Vem, ó bem-amada,
porque, como eu te disse,
se não há pássaros no meu parque
pode ser, se o vento
não soprar forte,
que venham borboletas.
Tudo é relativo
e incerto no mundo.
Também tuas sobrancelhas
parecem asas abertas.
(Jorge de Lima - Poemas escolhidos)
Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
tem um regato (até quieto o regato).
Não tem pássaros, que pena!
Mas os coqueiros fazem,
quando o vento passa,
um barulho que às vezes parece
bate-bate de asas.
Supõe, ó bem-amada,
se o vento sopra,
podem vir borboletas
à procura das minhas jarras
onde há flores debruçadas,
tão debruçadas que parecem escutar.
Todos os homens têm seus crentes,
ó bem-amada:
- os que pregam o amor ao próximo
e os que pregam a morte dele.
Mas tudo é pequeno
e ligeiro no mundo, ó amada.
Só o clamor dos desgraçados
é cada vez mais imenso!
Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
tem um regato até manso.
E os teus passos podem ir devagar
pelos caminhos:
aqui não há inquietação
de atravessar o asfalto.
Vem, ó bem-amada,
porque, como eu te disse,
se não há pássaros no meu parque
pode ser, se o vento
não soprar forte,
que venham borboletas.
Tudo é relativo
e incerto no mundo.
Também tuas sobrancelhas
parecem asas abertas.
(Jorge de Lima - Poemas escolhidos)
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
O exercício da esperança
UM DIA DESSES
De tanto me perder, de andar sem sono
Por essa noite sem nenhum destino
Por essa noite escura em que abandono
Os sonhos do meu tempo de menino
De tanto não poder mais ter saudade
De tudo que já tive e já perdi
Dona menina
Eu me resolvo agora ir me embora
Pra bem longe e daqui
Um dia desses eu me caso com você
você vai ver.. ai ai..você vai ver
Um dia desses de manhã com Padre Pompa
Você vai ver como eu me caso com você
Meu pobre coração não vale nada
Anda perdido, não tem solução
Mas se você quiser ser minha namorada
Vamos tentar, não custa nada
Até pode dar certo..ai ai
E se não der eu pego um avião
Vou pra Shangai e nunca mais eu volto pra te ver..
Um dia desses eu me caso com você
Você vai ver.. ai ai..você vai ver
Um dia desses de manhã com Padre Pompa
Você vai ver como eu me caso com você
(Torquato Neto)
De tanto me perder, de andar sem sono
Por essa noite sem nenhum destino
Por essa noite escura em que abandono
Os sonhos do meu tempo de menino
De tanto não poder mais ter saudade
De tudo que já tive e já perdi
Dona menina
Eu me resolvo agora ir me embora
Pra bem longe e daqui
Um dia desses eu me caso com você
você vai ver.. ai ai..você vai ver
Um dia desses de manhã com Padre Pompa
Você vai ver como eu me caso com você
Meu pobre coração não vale nada
Anda perdido, não tem solução
Mas se você quiser ser minha namorada
Vamos tentar, não custa nada
Até pode dar certo..ai ai
E se não der eu pego um avião
Vou pra Shangai e nunca mais eu volto pra te ver..
Um dia desses eu me caso com você
Você vai ver.. ai ai..você vai ver
Um dia desses de manhã com Padre Pompa
Você vai ver como eu me caso com você
(Torquato Neto)
domingo, 17 de agosto de 2008
O exercício sanguinário
NOSSA TRUCULÊNCIA
Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos galinha ao molho pardo, comeríamos gente com o seu sangue.
Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.
(Clarice Lispector)
Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos galinha ao molho pardo, comeríamos gente com o seu sangue.
Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.
(Clarice Lispector)
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
O exercício da noite
Se agora me esquecer, nada que a vista alcança
parecerá mudado. E a sombra, exata e móvel,
seguirá com sossego o caminho dos vivos.
A noite selará com minúcia meus olhos
e à cinza de meu rosto o mais agudo sonho
vestígio não trará dos derrotados mitos.
No meu dia seguinte encontrareis aquela
conseqüência de ser clarividente e pronta
- livre continuação dos destinos antigos.
(Ah, mas se eu te esquecer ficará pelo mundo,
morto e desnterrado, um vago prisioneiro,
entregue à dúbia lei dos seus cinco sentidos!
Amarga morte: suposta vida...)
(Cecília Meireles - Solombra)
parecerá mudado. E a sombra, exata e móvel,
seguirá com sossego o caminho dos vivos.
A noite selará com minúcia meus olhos
e à cinza de meu rosto o mais agudo sonho
vestígio não trará dos derrotados mitos.
No meu dia seguinte encontrareis aquela
conseqüência de ser clarividente e pronta
- livre continuação dos destinos antigos.
(Ah, mas se eu te esquecer ficará pelo mundo,
morto e desnterrado, um vago prisioneiro,
entregue à dúbia lei dos seus cinco sentidos!
Amarga morte: suposta vida...)
(Cecília Meireles - Solombra)
segunda-feira, 28 de julho de 2008
O exercício da dissertatividade
Ó, meu benzinho, meus olhos e meu amor, eu acho mesmo que você devia era de se casar com eu
* porque, se vc quiser mesmo, eu vou te tirar dessas cidades cinzas, juro, e te devolver pro colorido das plantas, árvores, do sol, das nuvens etc;
* porque eu vou vou ganhar nosso dinheirinho, mas nem por isso vou deixar de cozinhar (e cozinhar uns vegetariano bem louco), fazer bolo, mousse de limão, beijinho, sonho de valsa e, sobretudo, limonada, claro!;
* porque, já que eu nasci pra te dedicar minha vida mesmo, melhor dedicar direito, você não acha?
* porque, eu já te disse, amor de poeta é diferente desses aí que vc já viu antes;
* porque meu coração é seu lar, e não qualquer outra casa que está à venda, com placa de imobiliária...
* porque eu tô me cuidando de corpo e alma, só pra vc me querer... tô cuidando das espinhas, das minhas costas, dos probleminhas que a velhice vai começando a apontar, e também tô cuidando do meu humor, da minha maturidade, da sabedoria;
* porque, repito, tô cuidando do dinheiro e dos empregos e tals;
* porque eu decorei um milhão de poemas e de canções pra te cantar, além do que a Poesia ainda reserva pra eu escrever só pra vc;
* porque eu paro de roncar, se vc quiser, e, se eu não conseguir, eu paro de dormir e fico só te contemplando toda noite;
* porque a gente ainda precisa fazer aula de dança;
* porque cabe piano em casa, viu, e a gente leva o seu... vc nem sabe! tô virando homem e forte! se não tiver outro jeito, eu ponho ele nas costas e vamo que vamo!
* porque a gente nem vai ter vizinho chato por perto;
* porque a gente vai poder contar estrela de noite, toda noite;
* porque vai ter mordedor em casa, além das minhas pernas;
* porque vai ter limoeiro, borboleta e joaninha;
* porque é claro que vai ter muito metro de cão te esperando;
* porque, enfim, estou inteiro entregue e rendido
* e porque vc também nasceu pra felicidade.
* porque, se vc quiser mesmo, eu vou te tirar dessas cidades cinzas, juro, e te devolver pro colorido das plantas, árvores, do sol, das nuvens etc;
* porque eu vou vou ganhar nosso dinheirinho, mas nem por isso vou deixar de cozinhar (e cozinhar uns vegetariano bem louco), fazer bolo, mousse de limão, beijinho, sonho de valsa e, sobretudo, limonada, claro!;
* porque, já que eu nasci pra te dedicar minha vida mesmo, melhor dedicar direito, você não acha?
* porque, eu já te disse, amor de poeta é diferente desses aí que vc já viu antes;
* porque meu coração é seu lar, e não qualquer outra casa que está à venda, com placa de imobiliária...
* porque eu tô me cuidando de corpo e alma, só pra vc me querer... tô cuidando das espinhas, das minhas costas, dos probleminhas que a velhice vai começando a apontar, e também tô cuidando do meu humor, da minha maturidade, da sabedoria;
* porque, repito, tô cuidando do dinheiro e dos empregos e tals;
* porque eu decorei um milhão de poemas e de canções pra te cantar, além do que a Poesia ainda reserva pra eu escrever só pra vc;
* porque eu paro de roncar, se vc quiser, e, se eu não conseguir, eu paro de dormir e fico só te contemplando toda noite;
* porque a gente ainda precisa fazer aula de dança;
* porque cabe piano em casa, viu, e a gente leva o seu... vc nem sabe! tô virando homem e forte! se não tiver outro jeito, eu ponho ele nas costas e vamo que vamo!
* porque a gente nem vai ter vizinho chato por perto;
* porque a gente vai poder contar estrela de noite, toda noite;
* porque vai ter mordedor em casa, além das minhas pernas;
* porque vai ter limoeiro, borboleta e joaninha;
* porque é claro que vai ter muito metro de cão te esperando;
* porque, enfim, estou inteiro entregue e rendido
* e porque vc também nasceu pra felicidade.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
O exercício da liberdade
"Tinha tornado a pôr a mão na minha mão, no começo de falar, e que depois tirou; e se espaçou de mim. Mas nunca eu senti que ele estivesse melhor e perto, pelo quanto da voz, duma voz mesmo repassada. Coração - isto é, este pormenores todos. Foi um esclaro. O amor, já de si, é algum arrependimento. Abracei Diadorim, como as asas de todos os pássaros."
(Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas)
(Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas)
O exercício do estilhaçamento
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Drummond descobre tudo)
Villaça redescobre tudo:
arco estilístico cuja raiz obstinada é um sujeito de muitas faces, verdadeiro em todas e incompleto a cada uma.
O gauchismo não é apenas a face da insufici~encia, mas a certeza altiva da impossibilidade de administração das contradições.
Mundo de movimentos rápidos e de excessivos convites.
O que o termo "sombra" pudesse colher de sinistro do reino de Lúcifer, remontando à origem da maldição divina, fica amortecido na frase coloquial e na banalização do ser malgino promovida pelo termo "desses". Camaradagem irônica. Certa brejeirice de estilo.
A ciranda dos desejos, que num limite da imagem se prende atavicamente a um balé de faunos e ninfas no bosque mítico, é já o resultado cumulativo de sensações fundamente captadas. O ato de espiar e a cena espiada constituem uma metaforização do modo como se opõem a circunspecção paralisante do gauche e a dinâmica erótica dos homens e mulheres em pleno exercício "na vida".
A imaginação compensatória do inadaptado.
Falta de confiançano afirmar ou no negar categoricamente - hesitação que nunca chega a eliminar do horizonte o espectro dos valores absolutos.
Entre a sombra de onde espia e a luz azul da tarde.
Consciente da imagem pública em diálogo imediato coma confissão aberta de um cósmico abandono. Auto-suficiência plena, num nível, insuficiência abosluta, em outro.
A verdade íntima é a da carência, aqui expressa numa retomada profana da fala de Cristo.
Wisnik abre parênteses: O sacrifício do Filho no altar de um Deus que já não está lá.
O tom proibido das confissões diretas.
O ambiciosíssimo verso. O motivo da imensidão íntima se esborracha contra a superfície constrangedora dos dicionários de rimas e o chão pragmático da busca de soluções.
A virtual confissão tanto parece envergonhar o confessor quanto diminuir o confidente.
A recomposição da familiaridade é gaiata.
A alusão satânica também está fora de qualquer órbita romântica, conformada à prosa gasta em que já se reduziu a uma quase interjeição ("como o diabo!").
Humor irônico que, ao simular desfazer a melancolia, ainda mais a acentua.
O espelho partido.
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Drummond descobre tudo)
Villaça redescobre tudo:
arco estilístico cuja raiz obstinada é um sujeito de muitas faces, verdadeiro em todas e incompleto a cada uma.
O gauchismo não é apenas a face da insufici~encia, mas a certeza altiva da impossibilidade de administração das contradições.
Mundo de movimentos rápidos e de excessivos convites.
O que o termo "sombra" pudesse colher de sinistro do reino de Lúcifer, remontando à origem da maldição divina, fica amortecido na frase coloquial e na banalização do ser malgino promovida pelo termo "desses". Camaradagem irônica. Certa brejeirice de estilo.
A ciranda dos desejos, que num limite da imagem se prende atavicamente a um balé de faunos e ninfas no bosque mítico, é já o resultado cumulativo de sensações fundamente captadas. O ato de espiar e a cena espiada constituem uma metaforização do modo como se opõem a circunspecção paralisante do gauche e a dinâmica erótica dos homens e mulheres em pleno exercício "na vida".
A imaginação compensatória do inadaptado.
Falta de confiançano afirmar ou no negar categoricamente - hesitação que nunca chega a eliminar do horizonte o espectro dos valores absolutos.
Entre a sombra de onde espia e a luz azul da tarde.
Consciente da imagem pública em diálogo imediato coma confissão aberta de um cósmico abandono. Auto-suficiência plena, num nível, insuficiência abosluta, em outro.
A verdade íntima é a da carência, aqui expressa numa retomada profana da fala de Cristo.
Wisnik abre parênteses: O sacrifício do Filho no altar de um Deus que já não está lá.
O tom proibido das confissões diretas.
O ambiciosíssimo verso. O motivo da imensidão íntima se esborracha contra a superfície constrangedora dos dicionários de rimas e o chão pragmático da busca de soluções.
A virtual confissão tanto parece envergonhar o confessor quanto diminuir o confidente.
A recomposição da familiaridade é gaiata.
A alusão satânica também está fora de qualquer órbita romântica, conformada à prosa gasta em que já se reduziu a uma quase interjeição ("como o diabo!").
Humor irônico que, ao simular desfazer a melancolia, ainda mais a acentua.
O espelho partido.
O exercício da descritividade
Seu nome começa com "sim". Mas que ninguém se iluda: sua positividade inicial e seu tom afirmativo podem, pelas graças dos Céus e da Terra, se tensionar com a quinta menor no próximo compasso.
Tem as mãos mais lindas do mundo. Com elas, toca Villa-Lobos e também rock mela cueca, tipo Angra. Mas nem parece mela cueca, se ela toca. Porque as mãos dela, isso já é meio segredo, hein, inventam teclas que não existem nos teclados comuns. Oras bolas! Se não fosse assim, ninguém ficaria tão iluminado depois de ouvir ela tocando. Aliás, isso é um perigo danado... Com as mãos, ainda, ela lê cartas de tarot e mapas astrais. Me demorando nas mãos: elas também guardam em si o melhor cafuné e, se acompanhadas por outras mãos, são melhores que bengala branca ou varinha de condão de Santa Luzia.
Seus pezinhos, cheios de graça, parece mais é que flutuam por essas terras. Não se ouve seus passos, só se pressente. E ela caminha sempre de mansinho. Já adivinhou (mesmo em São Paulo) que a pressa não leva a lugar nenhum.
É pequenina, mas eu nunca vi ninguém maior. Se prolonga por todos os tempos e, igualmente, por todos os espaços.
Sabe muitas coisas. Das que importam, sabe todas - sabe tudo. Também nunca vi mulher tão mais inteligente. Por exemplo, se manifestado o apreço intuitivo pela letra X, ela já sabe que X é o desenho da Runa, que significa o presente e que contrai relações com “O enforcado”.
Tem lábios sensuais. Olhos-mel do melhor. Olhos em labareda. Tem uma pinta na parte superior da bochecha direita, que é um charme...
É gostosa. Tem o sol e tem a lua, Tem o medo e tem a rosa, Eu digo que ela é gostosa. Tem a noite e tem o dia, A poesia e tem a prosa, Eu digo que ela é gostosa. Tem a morte e tem o amor, E tem o mote e tem a glosa, Eu digo que ela é gostosa. Desfazendo a disjunção caduca e, a um só tempo, imatura, da “mãe” e da “prostituta”, da mulher pra casar e da mulher pra trepar, ela é inteira deliciosa. E, de novo, seu corpo, que podia parecer mirradinho, se agiganta no maior inconcebível.
No café da manhã, come lasanha. No almoço, come o que é possível um vegetariano comer. De noite, ela dorme.
Escreve, compõe e, agora, desenha.
Quer ser cabeleireira e pianista (de profissão), e fazer dança. É professora e pianista (de cheia mão).
Quer morar no campo. E há de.
Gosta, mais que tudo, de cães. Mas também sente imenso afeto pelo resto da natureza toda. Me incitou a paixão pelas árvores.
Sabe falar “pepino” em italiano e “morder”, em sânscrito. Sabe calar também.
É todas as musas juntas num só ser, incluindo a do Lenine, só precisa existir pra me completar, é segredo, é sagrada, é cada estrela no céu, cada flor no campo e cada letra no papel, é lua lua lua lua, Sol palavra danca lua, pluma tela pétala, meu bem, meu zen, meu mal etc etc... É tudo e é só por ela (não por bhakti-yoga, por flagelações ou por orações) que o mundo se dá ver na sua mais fina realidade.
Tem as mãos mais lindas do mundo. Com elas, toca Villa-Lobos e também rock mela cueca, tipo Angra. Mas nem parece mela cueca, se ela toca. Porque as mãos dela, isso já é meio segredo, hein, inventam teclas que não existem nos teclados comuns. Oras bolas! Se não fosse assim, ninguém ficaria tão iluminado depois de ouvir ela tocando. Aliás, isso é um perigo danado... Com as mãos, ainda, ela lê cartas de tarot e mapas astrais. Me demorando nas mãos: elas também guardam em si o melhor cafuné e, se acompanhadas por outras mãos, são melhores que bengala branca ou varinha de condão de Santa Luzia.
Seus pezinhos, cheios de graça, parece mais é que flutuam por essas terras. Não se ouve seus passos, só se pressente. E ela caminha sempre de mansinho. Já adivinhou (mesmo em São Paulo) que a pressa não leva a lugar nenhum.
É pequenina, mas eu nunca vi ninguém maior. Se prolonga por todos os tempos e, igualmente, por todos os espaços.
Sabe muitas coisas. Das que importam, sabe todas - sabe tudo. Também nunca vi mulher tão mais inteligente. Por exemplo, se manifestado o apreço intuitivo pela letra X, ela já sabe que X é o desenho da Runa, que significa o presente e que contrai relações com “O enforcado”.
Tem lábios sensuais. Olhos-mel do melhor. Olhos em labareda. Tem uma pinta na parte superior da bochecha direita, que é um charme...
É gostosa. Tem o sol e tem a lua, Tem o medo e tem a rosa, Eu digo que ela é gostosa. Tem a noite e tem o dia, A poesia e tem a prosa, Eu digo que ela é gostosa. Tem a morte e tem o amor, E tem o mote e tem a glosa, Eu digo que ela é gostosa. Desfazendo a disjunção caduca e, a um só tempo, imatura, da “mãe” e da “prostituta”, da mulher pra casar e da mulher pra trepar, ela é inteira deliciosa. E, de novo, seu corpo, que podia parecer mirradinho, se agiganta no maior inconcebível.
No café da manhã, come lasanha. No almoço, come o que é possível um vegetariano comer. De noite, ela dorme.
Escreve, compõe e, agora, desenha.
Quer ser cabeleireira e pianista (de profissão), e fazer dança. É professora e pianista (de cheia mão).
Quer morar no campo. E há de.
Gosta, mais que tudo, de cães. Mas também sente imenso afeto pelo resto da natureza toda. Me incitou a paixão pelas árvores.
Sabe falar “pepino” em italiano e “morder”, em sânscrito. Sabe calar também.
É todas as musas juntas num só ser, incluindo a do Lenine, só precisa existir pra me completar, é segredo, é sagrada, é cada estrela no céu, cada flor no campo e cada letra no papel, é lua lua lua lua, Sol palavra danca lua, pluma tela pétala, meu bem, meu zen, meu mal etc etc... É tudo e é só por ela (não por bhakti-yoga, por flagelações ou por orações) que o mundo se dá ver na sua mais fina realidade.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
O exercício sempre difícil e, por isso, reiterado do tempo
"Florentino Ariza lo escuchó sin pestañear. Luego miró por las ventanas el círculo
completo del cuadrante de la rosa náutica, el horizonte nítido, el cielo de diciembre sin una sola nube, las aguas navegables hasta siempre, y dijo:
-Sigamos derecho, derecho, derecho, otra vez hasta La Dorada.
Fermina Daza se estremeció, porque reconoció la antigua voz iluminada por la
gracia del Espíritu Santo, y miró al capitán: él era el destino. Pero el capitán no la vio, porque estaba anonadado por el tremendo poder de inspiración de Florentino Ariza.
-¿Lo dice en serio? -le preguntó.
-Desde que nací -dijo Florentino Ariza-, no he dicho una sola cosa que no sea en
serio.
El capitán miró a Fermina Daza y vio en sus pestañas los primeros destellos de
una escarcha invernal. Luego miró a Florentino Ariza, su dominio invencible, su amor impávido, y lo asustó la sospecha tardía de que es la vida, más que la muerte, la que no tiene límites.
-¿Y hasta cuándo cree usted que podemos seguir en este ir y venir del carajo? -le preguntó.
Florentino Ariza tenía la respuesta preparada desde hacía cincuenta y tres años,siete meses y once días con sus noches.
-Toda la vida -dijo".
(Gabriel García Marquez - "El amor en los tiempo del cólera")
completo del cuadrante de la rosa náutica, el horizonte nítido, el cielo de diciembre sin una sola nube, las aguas navegables hasta siempre, y dijo:
-Sigamos derecho, derecho, derecho, otra vez hasta La Dorada.
Fermina Daza se estremeció, porque reconoció la antigua voz iluminada por la
gracia del Espíritu Santo, y miró al capitán: él era el destino. Pero el capitán no la vio, porque estaba anonadado por el tremendo poder de inspiración de Florentino Ariza.
-¿Lo dice en serio? -le preguntó.
-Desde que nací -dijo Florentino Ariza-, no he dicho una sola cosa que no sea en
serio.
El capitán miró a Fermina Daza y vio en sus pestañas los primeros destellos de
una escarcha invernal. Luego miró a Florentino Ariza, su dominio invencible, su amor impávido, y lo asustó la sospecha tardía de que es la vida, más que la muerte, la que no tiene límites.
-¿Y hasta cuándo cree usted que podemos seguir en este ir y venir del carajo? -le preguntó.
Florentino Ariza tenía la respuesta preparada desde hacía cincuenta y tres años,siete meses y once días con sus noches.
-Toda la vida -dijo".
(Gabriel García Marquez - "El amor en los tiempo del cólera")
sábado, 10 de maio de 2008
O exercício da narratividade
TAJ MAHAL
Foi a mais linda história de amor
Que me contaram e agora eu vou contar
Do amor do principe Xá-Jehan
Pela princesa Nunts Mahal
Dê, dê, dêdêredê
Dê, dê, dêdêredê
Dê, dê
Taj Mahal
Taj Mahal
(Jorge Ben Jor)
obs: claro que é preciso ouvir a música!
Foi a mais linda história de amor
Que me contaram e agora eu vou contar
Do amor do principe Xá-Jehan
Pela princesa Nunts Mahal
Dê, dê, dêdêredê
Dê, dê, dêdêredê
Dê, dê
Taj Mahal
Taj Mahal
(Jorge Ben Jor)
obs: claro que é preciso ouvir a música!
quinta-feira, 8 de maio de 2008
O exercício do refazimento
DESNREDO
Do narrador a seus ouvintes:
- Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro da cerveja. Tinha o para não ser célebre. Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir, e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irvília, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.
- Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jô Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas muito tendo tudo de ser secreto, claro coberto de sete capas.
Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.
Não se via quando e como se viam. Jô Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.
Até que veio o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o Diz-se, também, que de leve a ferira, leviano modo.
Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudopersonagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.
Ela - longe – sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.
Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.
Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou – ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.
Mas.
Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam. Deu-se a entrada dos demônios.
Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou fugida a mulher, a desconhecido destino.
Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.
Mais.
No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade – idéia inata. Entregou-se e remir, redimir a mulher, à conta inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar.de sofrer e amar, a gente não se desafaz.ele queria apenas os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.
Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois.disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como refritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.
O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial operava o passado – plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?
Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar – e qualquer causa se irrefuta.
Pois, produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.
Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.
Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retornaram-se, e, conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.E pôs-se a fábula em ata.
(Guimarães Rosa - Tutaméia)
Do narrador a seus ouvintes:
- Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro da cerveja. Tinha o para não ser célebre. Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir, e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irvília, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.
- Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jô Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas muito tendo tudo de ser secreto, claro coberto de sete capas.
Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.
Não se via quando e como se viam. Jô Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.
Até que veio o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o Diz-se, também, que de leve a ferira, leviano modo.
Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudopersonagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.
Ela - longe – sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.
Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.
Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou – ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.
Mas.
Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam. Deu-se a entrada dos demônios.
Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou fugida a mulher, a desconhecido destino.
Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.
Mais.
No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade – idéia inata. Entregou-se e remir, redimir a mulher, à conta inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar.de sofrer e amar, a gente não se desafaz.ele queria apenas os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.
Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois.disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como refritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.
O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial operava o passado – plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?
Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar – e qualquer causa se irrefuta.
Pois, produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.
Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.
Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retornaram-se, e, conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.E pôs-se a fábula em ata.
(Guimarães Rosa - Tutaméia)
quarta-feira, 7 de maio de 2008
O exercício da auto-negação
UM CANCERIANO SEM LAR
Estou sentado em minha cama
Tomando meu café prá fumar
Trancado dentro de mim mesmo
Eu sou um canceriano sem lar
Estou sentado em minha cama
Tomando meu café prá fumar
É, é, porém, mas, todavia
Eu sou um canceriano sem lar
Eu tomo café pra mim não chorar
Pergunto à nuvem preta quando o sol vai brilhar
Estou deitado em minha vida
E o soro que me induz a lutar
Estou na Clínica Tobias
Tão longe do aconchego do lar
All right, man
Play the blues
Clínica Tobias Blues
(Raulzito)
EXCERTO DO "HORÓSCOPO DO MAL":
Câncer (21 de junho a 21 de julho)
Você é um chorão desgraçado, e as pessoas que convivem com você são
obrigadas a ficar agüentando você reclamar da sua vida. Você se acha
solidário e compreensivo com os problemas dos outros, o que faz de você um baba-ovo e puxa-saco. O que você quer mesmo é ficar "bem na fita". Você só quer saber de se dar bem, custe o que custar, e acaba sempre ficando numa boa, apesar de não valer nada. É, na verdade, um canalha com cara de santo. Quando pressionado você faz chantagem emocional. Chora e faz da sua vida a pior de todas. Por isso, os outros signos do zodíaco nunca desconfiam de você. E o pior é que todos gostam de você.
(um sábio muito sábio)
Não é em vão que o signo de câncer tem o nome que tem... As palavras sempre sábias sempre dizem mais do que parecem dizer à princípio...
Câncer é um mal! Uma praga!
É verdade que são sensíveis, mas fazem da maior das sensibilidades uma arma!
Eu nunquinha confio num canceriano e recomendo que ninguém confie também.
Também é verdade que os cancerianos não costumam ter outra arma... Mas amor não deiva nunca de virar uma arma. Mas vira... Voluntária ou involuntariamente.
Eu coloquei a música do Raulzito só pra mostrar minha indignação com alguém orgulhoso de ser canceriano. Orgulhoso a ponto de escancarar no título de uma canção popular.
Ah! Importantíssimo notar que, se o signo da pessoa for Áries e o ascendente, Câncer (como é o caso de alguns poetas blogueiros), dá na mesma merda!
Por fim, importantíssimo notar que esse post não passa de falta de caráter também, querendo angariar "lares".
Estou sentado em minha cama
Tomando meu café prá fumar
Trancado dentro de mim mesmo
Eu sou um canceriano sem lar
Estou sentado em minha cama
Tomando meu café prá fumar
É, é, porém, mas, todavia
Eu sou um canceriano sem lar
Eu tomo café pra mim não chorar
Pergunto à nuvem preta quando o sol vai brilhar
Estou deitado em minha vida
E o soro que me induz a lutar
Estou na Clínica Tobias
Tão longe do aconchego do lar
All right, man
Play the blues
Clínica Tobias Blues
(Raulzito)
EXCERTO DO "HORÓSCOPO DO MAL":
Câncer (21 de junho a 21 de julho)
Você é um chorão desgraçado, e as pessoas que convivem com você são
obrigadas a ficar agüentando você reclamar da sua vida. Você se acha
solidário e compreensivo com os problemas dos outros, o que faz de você um baba-ovo e puxa-saco. O que você quer mesmo é ficar "bem na fita". Você só quer saber de se dar bem, custe o que custar, e acaba sempre ficando numa boa, apesar de não valer nada. É, na verdade, um canalha com cara de santo. Quando pressionado você faz chantagem emocional. Chora e faz da sua vida a pior de todas. Por isso, os outros signos do zodíaco nunca desconfiam de você. E o pior é que todos gostam de você.
(um sábio muito sábio)
Não é em vão que o signo de câncer tem o nome que tem... As palavras sempre sábias sempre dizem mais do que parecem dizer à princípio...
Câncer é um mal! Uma praga!
É verdade que são sensíveis, mas fazem da maior das sensibilidades uma arma!
Eu nunquinha confio num canceriano e recomendo que ninguém confie também.
Também é verdade que os cancerianos não costumam ter outra arma... Mas amor não deiva nunca de virar uma arma. Mas vira... Voluntária ou involuntariamente.
Eu coloquei a música do Raulzito só pra mostrar minha indignação com alguém orgulhoso de ser canceriano. Orgulhoso a ponto de escancarar no título de uma canção popular.
Ah! Importantíssimo notar que, se o signo da pessoa for Áries e o ascendente, Câncer (como é o caso de alguns poetas blogueiros), dá na mesma merda!
Por fim, importantíssimo notar que esse post não passa de falta de caráter também, querendo angariar "lares".
sexta-feira, 2 de maio de 2008
terça-feira, 22 de abril de 2008
O exercício do tempo
posso ouvir o vento passar
assistir à onda bater
mas o estrago que faz
a vida é curta pra ver
eu pensei que quando eu morrer
vou acordar para o tempo
e para o tempo parar.
um século, um mês
três vidas e mais
um passo
pra trás?
por que
será?
...
vou pensar.
como pode alguém sonhar
o que é impossível saber
não te dizer o que eu penso
já é pensar em dizer
e isso, eu vi, o vento leva!
não sei mas sinto que é como sonhar
que o esforço pra lembrar
é a vontade de esquecer
e isso por quê?
(diz mais)
ú
se a gente já não sabe mais
rir um do outro, meu bem
então o que resta é chorar
e talvez
se tem que durar
vem renascido o amor
bento de lágrimas.
um século, três,
se as vidas atrás são parte de nós
e como será?
o vento vai dizer lento o que virá
e se chover demais a gente vai saber,
claro de um trovão,
se alguém depois sorrir em paz.
(só de encontrar...)
("O vento" - Rodrigo Amarante)
(...)
A vida é mesmo coisa muito frágil
Uma bobagem, uma irrelevância
Diante da eternidade do amor de quem se ama
(...)
("Por onde andei" - Nando Reis)
assistir à onda bater
mas o estrago que faz
a vida é curta pra ver
eu pensei que quando eu morrer
vou acordar para o tempo
e para o tempo parar.
um século, um mês
três vidas e mais
um passo
pra trás?
por que
será?
...
vou pensar.
como pode alguém sonhar
o que é impossível saber
não te dizer o que eu penso
já é pensar em dizer
e isso, eu vi, o vento leva!
não sei mas sinto que é como sonhar
que o esforço pra lembrar
é a vontade de esquecer
e isso por quê?
(diz mais)
ú
se a gente já não sabe mais
rir um do outro, meu bem
então o que resta é chorar
e talvez
se tem que durar
vem renascido o amor
bento de lágrimas.
um século, três,
se as vidas atrás são parte de nós
e como será?
o vento vai dizer lento o que virá
e se chover demais a gente vai saber,
claro de um trovão,
se alguém depois sorrir em paz.
(só de encontrar...)
("O vento" - Rodrigo Amarante)
(...)
A vida é mesmo coisa muito frágil
Uma bobagem, uma irrelevância
Diante da eternidade do amor de quem se ama
(...)
("Por onde andei" - Nando Reis)
domingo, 20 de abril de 2008
O exercício romântico
(...)
Eu vim de um mundo levado
Misturado por inteiro
Fez o amor mais procurado
Que moeda, que dinheiro.
(...)
("Amor de violeiro" - Rolando Boldrin)
Eu vim de um mundo levado
Misturado por inteiro
Fez o amor mais procurado
Que moeda, que dinheiro.
(...)
("Amor de violeiro" - Rolando Boldrin)
sábado, 19 de abril de 2008
O exercício da generosidade
POR QUE EU FAÇO ÁRABE
(glosando Tivinho)
Quando fui explicar a Safa (professora de Língua Árabe) os motivos reais, embora incompletos, das minhas muitas faltas, ela se disponibilizou a me ajudar todas manhãs de segunda e quinta, desde às 7h da manhã.
Quando o Mamede (professor de Literatura e Língua Árabe) soube que era meu aniversário, ne segunda-feira, além de autografar o primeiro volume das 1001 noites (com que meus bons amigos me presenteariam), ele me deu o segundo volume.
A Safa, por sua vez, quando também soube do meu aniversário, resolveu me dar o livro que ela tinha traduzido do árabe: "A porta do sol".
No árabe, a gente aprende toda uma cultura especialíssima, mas qualquer coisa que se aprenda lá é só pretexto pra aprender a ser Humano.
(glosando Tivinho)
Quando fui explicar a Safa (professora de Língua Árabe) os motivos reais, embora incompletos, das minhas muitas faltas, ela se disponibilizou a me ajudar todas manhãs de segunda e quinta, desde às 7h da manhã.
Quando o Mamede (professor de Literatura e Língua Árabe) soube que era meu aniversário, ne segunda-feira, além de autografar o primeiro volume das 1001 noites (com que meus bons amigos me presenteariam), ele me deu o segundo volume.
A Safa, por sua vez, quando também soube do meu aniversário, resolveu me dar o livro que ela tinha traduzido do árabe: "A porta do sol".
No árabe, a gente aprende toda uma cultura especialíssima, mas qualquer coisa que se aprenda lá é só pretexto pra aprender a ser Humano.
sábado, 12 de abril de 2008
O exercício descartesiano
Zé Celso contava que, à época de confecção da bandeira nacional, apresentaram pro Marechal Deodoro o lema central: "Amor, ordem e progresso". Marechal Deodoro, com sua formação rigidamente cartesiana, tratou de rapidamente podar o amor da bandeira.
Bem, já vimos que, sem amor, não há progresso nem muito menos ordem possível.
Com amor, talvez também não haja. Mas que importa a ordem e o progresso quando se tem amor?
Bem, já vimos que, sem amor, não há progresso nem muito menos ordem possível.
Com amor, talvez também não haja. Mas que importa a ordem e o progresso quando se tem amor?
quarta-feira, 9 de abril de 2008
O exercício do corpo
Quando a energia voltar,
os relógios já não saberão de cronologia, saberão é de dança.
os relógios já não saberão de cronologia, saberão é de dança.
terça-feira, 8 de abril de 2008
O exercício da entrega (quase) desinteressada
(...)
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
("Amar"- Carlos Drummond)
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
("Amar"- Carlos Drummond)
O exercício do ser
Eu digo é uma coisa:
Há um poema do Drummond que é concluído assim:
"Amor é privilégio de maduros"
Numa entrevista, o próprio poeta, após encerrar a leitura do poema, apressadamente trata de retificá-lo: diz que amor não é propriamente privilégio de maduros, mas que o amor é apurado na madureza, pois "quem não amou na infância, nem na aolescência, nem quando adulto, não merece amar na velhice".
De modos que: pra ser amado, meu menino, não é preciso o menor esforço, não, não é necessária a menor luta, é mera questão de boa ou má fortuna.
Mas, pra amar...
é mister toda a labuta, toda a firmeza de caráter, toda a rigidez de conduta, toda a disciplina! é preciso merecer!
Amar é pra poucos!
Nesse mundão tem mais gente milionária do que gente amante!
E, de fato, em geral, as pessoas amadas não merecem o amor que se lhe dedicam...
Mas, quem ama, esse sim, é porque merece amar.
Há um poema do Drummond que é concluído assim:
"Amor é privilégio de maduros"
Numa entrevista, o próprio poeta, após encerrar a leitura do poema, apressadamente trata de retificá-lo: diz que amor não é propriamente privilégio de maduros, mas que o amor é apurado na madureza, pois "quem não amou na infância, nem na aolescência, nem quando adulto, não merece amar na velhice".
De modos que: pra ser amado, meu menino, não é preciso o menor esforço, não, não é necessária a menor luta, é mera questão de boa ou má fortuna.
Mas, pra amar...
é mister toda a labuta, toda a firmeza de caráter, toda a rigidez de conduta, toda a disciplina! é preciso merecer!
Amar é pra poucos!
Nesse mundão tem mais gente milionária do que gente amante!
E, de fato, em geral, as pessoas amadas não merecem o amor que se lhe dedicam...
Mas, quem ama, esse sim, é porque merece amar.
O exercício da maturidade
O AMOR ANTIGO
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o amor antigo, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
(Carlos Drummond)
no livro "Amar se aprende amando"
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o amor antigo, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
(Carlos Drummond)
no livro "Amar se aprende amando"
segunda-feira, 7 de abril de 2008
O exercício do desapego
BRISA
Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
(Manu Bandeira, claro!)
Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
(Manu Bandeira, claro!)
domingo, 6 de abril de 2008
O exercício das distâncias
No dia em que seu filhinho aniversariou naquele ano, a mãe não pôde ritualisticamente comemorar, como sempre, aquele dia especial, que de tanto motivo, tanto quebranto e tanto encanto tinha engordado a sua própria vida.
Não pôde gastar as economias que tinha reservado tão sofridamente para os presentes,
Não pôde reunir seus muitos ingredientes para assar o mais delicioso dos bolos,
Não pôde cozinhar a comida preferida dele,
Não pôde lavar suas roupas emporcalhadas de lama,
Não pôde arrumar sua bagunça,
Não pôde oferendar os beijos saudosos que há muito acumulava nos lábios,
Não pôde oferendar os abraços que há muito requentava nos braços,
Não pôde fazer um poema,
Não pôde compor uma canção,
Não pôde cantar "Parabéns" (nem em português, nem em inglês, nem em árabe),
Não pôde encher bexigas,
Não pôde contratar palhaços,
Não pôde agradecer à vida, à natureza ou a Deus.
Não pôde ligar,
Não pôde mandar e-mail, scrap, depoimento,
Não pôde assistir ao seu show em Campinas,
Não pôde sequer considerar que aquele dia era especial, deixando de lado os compromissos,
Não pôde, simplesmente, fazer nada.
Quando a noite desceu, a mãe, humildemente, como houvesse acabado a enregia da casa, acendeu uma vela, recolheu-se no quarto rebelde do filho sempre velado com esmero, deitou-se em sua cama - encolhida para preservar o lugar para o filhinho e encolhida pelo frio - e dormiu até seu despertador soar longe, no seu quarto, pontualmente, às 6h20m da manhã do dia seguinte.
Não pôde gastar as economias que tinha reservado tão sofridamente para os presentes,
Não pôde reunir seus muitos ingredientes para assar o mais delicioso dos bolos,
Não pôde cozinhar a comida preferida dele,
Não pôde lavar suas roupas emporcalhadas de lama,
Não pôde arrumar sua bagunça,
Não pôde oferendar os beijos saudosos que há muito acumulava nos lábios,
Não pôde oferendar os abraços que há muito requentava nos braços,
Não pôde fazer um poema,
Não pôde compor uma canção,
Não pôde cantar "Parabéns" (nem em português, nem em inglês, nem em árabe),
Não pôde encher bexigas,
Não pôde contratar palhaços,
Não pôde agradecer à vida, à natureza ou a Deus.
Não pôde ligar,
Não pôde mandar e-mail, scrap, depoimento,
Não pôde assistir ao seu show em Campinas,
Não pôde sequer considerar que aquele dia era especial, deixando de lado os compromissos,
Não pôde, simplesmente, fazer nada.
Quando a noite desceu, a mãe, humildemente, como houvesse acabado a enregia da casa, acendeu uma vela, recolheu-se no quarto rebelde do filho sempre velado com esmero, deitou-se em sua cama - encolhida para preservar o lugar para o filhinho e encolhida pelo frio - e dormiu até seu despertador soar longe, no seu quarto, pontualmente, às 6h20m da manhã do dia seguinte.
terça-feira, 1 de abril de 2008
O exercício da magia
Fábula do tempo em que as árvores andavam
(me alfabetizando com o Gabo)
Nenhum dos dois apaixonados poderia suspeitar, sob o aroma quente daquela tarde de abril, que aquela árvore que os aconchegava em sombras e silêncio retornaria 17 anos e meio depois, impondo-se austera ante uma tempestade pavorosa, debochando dos raios que se atiravam sobre ela.
Naquele tempo as árvores ainda andavam. Não tinham, então, despertado a fúria dos deuses com os futuros tormentos: desertavam lugares por causa do sol, por causa da chuva, por causa dos cães, por que a terra era fofa, por que a terra era arenosa, por que a terra era roxa, etc etc, levando consigo os passarinhos, as gentes e tudo o mais. Apesar de estabanadas, tinham tamanha liderança que acharam por bem tomar o rebanho do deus Pã. Seu rebanho era, como se sabe, de nuvens, de maneira que as árvores pretendiam tomar o espaço celestial, desabrigando os deuses, anjos, etc. Ocorre que a ninfa Eco sussurrou os detalhes do plano maligno das árvores e deus Pã pôde, a tempo, salvaguardar o mundo etéreo, castigando as árvores com raízes tão profundas que jamais conseguissem caminhar.
Todavia ocorre, na fábula, que a árvore, ainda livre, retornou a encontrá-los, Demétrio e Muriel, dissolvendo na água que há 7 meses não cessava de despencar, mas que despencava ainda mais violenta naquele fim de tarde. Por engenho da fortuna, ambos procuraram abrigo, na mesma árvore, na mesma hora. Como a chuva dificultasse a visão, eles não se reconheceram um ao outro nem à arvore. Isso é o que eles dizem, mas eu creio também que estavam, ambos, muito diferentes para se reconhecerem de imediato. Decorridos bons minutos, um dos raios desceu varrendo com fogo o que lhe atrapalhasse o caminho. O clarão incendiou as duas faces de luz e de pavor. Deixando entrever os escombros a que as histórias inevitavelmente reduzem o coração, pelas alterações que o galope do tempo provocou e, paradoxalmente, pelas raízes que tempestade nenhuma arrancou.
No instante do clarão, os olhos de Demétrio espantados ofereciam carinho, colo e chá contra a chuva. Muriel, percebendo, gritou entre os ruidosos trovões: - Que um raio me leve, mas nunca mais os seus braços! e saiu com tamanho ódio nos passos que a terra sacudida fez tremer casas e derrubar choupanas.
Demétrio permaneceu no exato mesmo lugar por 3 anos. A árvore o acompanhou resistente nos primeiros 2 anos, 4 meses e 8 dias, depois partiu, cansada da abnegação do moço e de seu silêncio. Demétrio sequer reparou que a árvore saíra! Permaneceu alheio a tudo de dentro como de fora. Houve quem veio lhe chamar para a vida novamente. Primeiro vieram os outdores, depois os amigos mais íntimos, até tiraram o Roberto Carlos dos navios pra fazer um show particular e especial só pro moço! veio também um guru, não teve jeito. Só regressou sabe-se lá de onde no terceiro ano sem qualquer razão explicável.
Intuiu que estava na hora de ter uma filha. Intuiu errado, pois que teve um filho: um assum preto, que cantava às 7h da manhã uma ária de Mozart; ao meio-dia e quarenta, Verdi, às 5h15m, o último movimento da 9ª de Beethoven e, nos desvairios da noite toda, Shöenberg. Nunca se soube bem como ele, virgem, pariu um pássaro. A verdade é que muita coisa a gente fica sem saber. O que se soube foi que os erros que ele cometeu grosseiramente há um bom tempo acabaram por revestir com um mármore firme e resplandescente a parte do coração de Muriel que lhe cabia - um mármore que pesava demasiado e doloridamente em seu peito frágil. De modo que, quando ela soube, em seu reforçado café-da-manhã, que Demétrio já estava há 9 meses no mesmo lugar em que ela lhe manifestou sua fúria, a notícia apenas quicou no mármore e seu perdeu por espirais, sem nunca atingir qualquer parte consciente ou inconsciente dela.
Era tamanho o assédio de homens e de homens bons que, a despeito do seu justificado temor, Muriel acabou se casando com um príncipe encantado altivo, num cavalo branco, que os levou para um outro reino.
Ela cuidava de seus porcos muito tranqüilamente, enquanto seu príncipe lhe dedicava poemas e limonadas. Demétrio, já pai, decidiu que procuraria sua bem-amada. Era bem tarde: ela estava num reino que só chegava com cavalos brancos. E ele não tinha cavalos brancos, apenas um filhote assum preto. Ele tardou mesmo pra saber de sua desventura, pois, quando não a encontrava, acreditava que era por ela ter ido ao mercado, ao restaurante ou fazer show.
Tentou os cruzamentos entre os cavalos mais claros do reino - só os genes mais escuros é que prevaleciam! Quando os alquimistas lhe contaram e provaram que o branco é a reunião de todas as cores, ficou fascinado e chorou de alegria. Tentou os cruzamentos entre cavalos e éguas das cores mais diversas. Ainda assim não obteve êxito. Pediu carona aos alquimistas que, além de saberem de todas as coisas do planeta, percorriam o mundo todo - haveriam de um dia chegar ao tal reino onde sua amada estava.
Zanzou por todos os mares e desertos da Terra, nem o menor rastro de sua bem-amada. Procurava ávido, a cada nova aldeia, as belezurinhas colecionadas e congraçadas em constelações na sua face bem amada. Sequer poeira cósmica do seu rastro havia... Nem estercos de cavalo branco. Nada, nada.
Às noites, recolhido em sua solidão, calculava qual deveria ter sido a quantidade de água, fogo, terra, ar e éter que Deus usara pra conseguir o milagre que perfaziam as tais belezurinhas. Cálculos vãos, pois que sempre faltava algo, por mais que adicionasse.
Completas 3 voltas ao mundo, ele se sentou ao pé daquela arvrinha e chorou.
Chorou tanto que fundou um lago... um riozinho... um oceano! O Oceano Pacífico, para os mais desavisados de sua origem. Pois bem, interrompeu seu choro apenas quando seu assum preto, desolado com sua solidão e a tristeza inconsolável de seu pai, não cantou à hora prevista. Interrompeu o choro de tristeza ainda mais funda e de medo do seu filho ter morrido. Não, mas quase. Após o alívio de reencontrar seu filho, de saber seus motivos e tudo mais, houve o silêncio no mundo inteiro. Por um instante, nenhuma onda sonora vibrou o ar. Ele só se apercebeu disso quando, no instante seguinte, ouviu o choro de sua bem-amada. Estava certo de que era o exato seu choro. E disse, muito resoluto e calmo: “Pro caralho, os cavalos brancos!”.
Sabia que o choro dela era contíguo ao dele, constituindo a outra parte do Oceano Pacífico. Atravessou, pois, o oceano em braçadas firmes, às vezes com a ajuda das tartarugas, das baleias, até mesmo das sereias (que logo ficaram sabendo da linda fábula e se apiedaram do moço). Apenas uma observação: apesar da idade já avançada, Demétrio era ainda bem moço. Enquanto Muriel, a bela entre as belas, já não estava mais tão moça assim.
Sempre guiado pelas correntes plangentes que abriam, no oceano, o choro dolorido, ele alcançou sua bem-amada. Que não chorava senão a morte do seu marido.
Após permitir de todo que a pontinha do ciúme mais pungente inoculasse seu último calor, Demétrio duvidou do que, após tanto tempo (agora, inumerável), amava. Mas não tardou em lhe dar, sem oferecer, o colo, o carinho e o chá suspensos no tempo.
Achou muito estranho que ela chorasse a falta de uma pessoa. Não que as pessoas não fizessem falta pra Muriel, mas provavelmente ela não deixaria a falta cair em lágrimas. Em verdade, achava muita coisa muito estranha.
Encontrou os porquinhos desgrenhados e famintos, deu-lhes de comer. Os poemas, não sabia fazer. A limonada, achou melhor não arriscar. Tratou de seduzi-la com as novas coisas que havia aprendido pelos descaminhos: tirava joaninhas dos bolsos dela, soprava borboletas, pintava arco-íris com água e luz, compunha fábulas amorosas, engolia fogo, etc... Arrolou muita calma pra descobrir qual era, afinal, a vida que tinha desbragadamente depositado nos braços de sua bem-amada e quem era, agora, a sua bem-amada.
Como já estava mais velhinha, deixou as fórmulas alquimistas dele dissolveram o mármore dos tamanhos erros antigos, sem segredar suas concessões. Só não se sentia muito bem em acompanhar um homem ainda tão, jovem robusto. Em pouco tempo, perdeu seu recato e entregou-se inteirinha, em cada ossinho, cada carne, cada palavra que balbuciava, em cada bom dia, que era muito bom, sim, obrigada.
Quando se deu conta, esquecida da morte e dos desencontros que (também) retornariam amiúde, já estava nova de novo também, dançando a eterna e irresistível ciranda da fortuna.
(me alfabetizando com o Gabo)
Nenhum dos dois apaixonados poderia suspeitar, sob o aroma quente daquela tarde de abril, que aquela árvore que os aconchegava em sombras e silêncio retornaria 17 anos e meio depois, impondo-se austera ante uma tempestade pavorosa, debochando dos raios que se atiravam sobre ela.
Naquele tempo as árvores ainda andavam. Não tinham, então, despertado a fúria dos deuses com os futuros tormentos: desertavam lugares por causa do sol, por causa da chuva, por causa dos cães, por que a terra era fofa, por que a terra era arenosa, por que a terra era roxa, etc etc, levando consigo os passarinhos, as gentes e tudo o mais. Apesar de estabanadas, tinham tamanha liderança que acharam por bem tomar o rebanho do deus Pã. Seu rebanho era, como se sabe, de nuvens, de maneira que as árvores pretendiam tomar o espaço celestial, desabrigando os deuses, anjos, etc. Ocorre que a ninfa Eco sussurrou os detalhes do plano maligno das árvores e deus Pã pôde, a tempo, salvaguardar o mundo etéreo, castigando as árvores com raízes tão profundas que jamais conseguissem caminhar.
Todavia ocorre, na fábula, que a árvore, ainda livre, retornou a encontrá-los, Demétrio e Muriel, dissolvendo na água que há 7 meses não cessava de despencar, mas que despencava ainda mais violenta naquele fim de tarde. Por engenho da fortuna, ambos procuraram abrigo, na mesma árvore, na mesma hora. Como a chuva dificultasse a visão, eles não se reconheceram um ao outro nem à arvore. Isso é o que eles dizem, mas eu creio também que estavam, ambos, muito diferentes para se reconhecerem de imediato. Decorridos bons minutos, um dos raios desceu varrendo com fogo o que lhe atrapalhasse o caminho. O clarão incendiou as duas faces de luz e de pavor. Deixando entrever os escombros a que as histórias inevitavelmente reduzem o coração, pelas alterações que o galope do tempo provocou e, paradoxalmente, pelas raízes que tempestade nenhuma arrancou.
No instante do clarão, os olhos de Demétrio espantados ofereciam carinho, colo e chá contra a chuva. Muriel, percebendo, gritou entre os ruidosos trovões: - Que um raio me leve, mas nunca mais os seus braços! e saiu com tamanho ódio nos passos que a terra sacudida fez tremer casas e derrubar choupanas.
Demétrio permaneceu no exato mesmo lugar por 3 anos. A árvore o acompanhou resistente nos primeiros 2 anos, 4 meses e 8 dias, depois partiu, cansada da abnegação do moço e de seu silêncio. Demétrio sequer reparou que a árvore saíra! Permaneceu alheio a tudo de dentro como de fora. Houve quem veio lhe chamar para a vida novamente. Primeiro vieram os outdores, depois os amigos mais íntimos, até tiraram o Roberto Carlos dos navios pra fazer um show particular e especial só pro moço! veio também um guru, não teve jeito. Só regressou sabe-se lá de onde no terceiro ano sem qualquer razão explicável.
Intuiu que estava na hora de ter uma filha. Intuiu errado, pois que teve um filho: um assum preto, que cantava às 7h da manhã uma ária de Mozart; ao meio-dia e quarenta, Verdi, às 5h15m, o último movimento da 9ª de Beethoven e, nos desvairios da noite toda, Shöenberg. Nunca se soube bem como ele, virgem, pariu um pássaro. A verdade é que muita coisa a gente fica sem saber. O que se soube foi que os erros que ele cometeu grosseiramente há um bom tempo acabaram por revestir com um mármore firme e resplandescente a parte do coração de Muriel que lhe cabia - um mármore que pesava demasiado e doloridamente em seu peito frágil. De modo que, quando ela soube, em seu reforçado café-da-manhã, que Demétrio já estava há 9 meses no mesmo lugar em que ela lhe manifestou sua fúria, a notícia apenas quicou no mármore e seu perdeu por espirais, sem nunca atingir qualquer parte consciente ou inconsciente dela.
Era tamanho o assédio de homens e de homens bons que, a despeito do seu justificado temor, Muriel acabou se casando com um príncipe encantado altivo, num cavalo branco, que os levou para um outro reino.
Ela cuidava de seus porcos muito tranqüilamente, enquanto seu príncipe lhe dedicava poemas e limonadas. Demétrio, já pai, decidiu que procuraria sua bem-amada. Era bem tarde: ela estava num reino que só chegava com cavalos brancos. E ele não tinha cavalos brancos, apenas um filhote assum preto. Ele tardou mesmo pra saber de sua desventura, pois, quando não a encontrava, acreditava que era por ela ter ido ao mercado, ao restaurante ou fazer show.
Tentou os cruzamentos entre os cavalos mais claros do reino - só os genes mais escuros é que prevaleciam! Quando os alquimistas lhe contaram e provaram que o branco é a reunião de todas as cores, ficou fascinado e chorou de alegria. Tentou os cruzamentos entre cavalos e éguas das cores mais diversas. Ainda assim não obteve êxito. Pediu carona aos alquimistas que, além de saberem de todas as coisas do planeta, percorriam o mundo todo - haveriam de um dia chegar ao tal reino onde sua amada estava.
Zanzou por todos os mares e desertos da Terra, nem o menor rastro de sua bem-amada. Procurava ávido, a cada nova aldeia, as belezurinhas colecionadas e congraçadas em constelações na sua face bem amada. Sequer poeira cósmica do seu rastro havia... Nem estercos de cavalo branco. Nada, nada.
Às noites, recolhido em sua solidão, calculava qual deveria ter sido a quantidade de água, fogo, terra, ar e éter que Deus usara pra conseguir o milagre que perfaziam as tais belezurinhas. Cálculos vãos, pois que sempre faltava algo, por mais que adicionasse.
Completas 3 voltas ao mundo, ele se sentou ao pé daquela arvrinha e chorou.
Chorou tanto que fundou um lago... um riozinho... um oceano! O Oceano Pacífico, para os mais desavisados de sua origem. Pois bem, interrompeu seu choro apenas quando seu assum preto, desolado com sua solidão e a tristeza inconsolável de seu pai, não cantou à hora prevista. Interrompeu o choro de tristeza ainda mais funda e de medo do seu filho ter morrido. Não, mas quase. Após o alívio de reencontrar seu filho, de saber seus motivos e tudo mais, houve o silêncio no mundo inteiro. Por um instante, nenhuma onda sonora vibrou o ar. Ele só se apercebeu disso quando, no instante seguinte, ouviu o choro de sua bem-amada. Estava certo de que era o exato seu choro. E disse, muito resoluto e calmo: “Pro caralho, os cavalos brancos!”.
Sabia que o choro dela era contíguo ao dele, constituindo a outra parte do Oceano Pacífico. Atravessou, pois, o oceano em braçadas firmes, às vezes com a ajuda das tartarugas, das baleias, até mesmo das sereias (que logo ficaram sabendo da linda fábula e se apiedaram do moço). Apenas uma observação: apesar da idade já avançada, Demétrio era ainda bem moço. Enquanto Muriel, a bela entre as belas, já não estava mais tão moça assim.
Sempre guiado pelas correntes plangentes que abriam, no oceano, o choro dolorido, ele alcançou sua bem-amada. Que não chorava senão a morte do seu marido.
Após permitir de todo que a pontinha do ciúme mais pungente inoculasse seu último calor, Demétrio duvidou do que, após tanto tempo (agora, inumerável), amava. Mas não tardou em lhe dar, sem oferecer, o colo, o carinho e o chá suspensos no tempo.
Achou muito estranho que ela chorasse a falta de uma pessoa. Não que as pessoas não fizessem falta pra Muriel, mas provavelmente ela não deixaria a falta cair em lágrimas. Em verdade, achava muita coisa muito estranha.
Encontrou os porquinhos desgrenhados e famintos, deu-lhes de comer. Os poemas, não sabia fazer. A limonada, achou melhor não arriscar. Tratou de seduzi-la com as novas coisas que havia aprendido pelos descaminhos: tirava joaninhas dos bolsos dela, soprava borboletas, pintava arco-íris com água e luz, compunha fábulas amorosas, engolia fogo, etc... Arrolou muita calma pra descobrir qual era, afinal, a vida que tinha desbragadamente depositado nos braços de sua bem-amada e quem era, agora, a sua bem-amada.
Como já estava mais velhinha, deixou as fórmulas alquimistas dele dissolveram o mármore dos tamanhos erros antigos, sem segredar suas concessões. Só não se sentia muito bem em acompanhar um homem ainda tão, jovem robusto. Em pouco tempo, perdeu seu recato e entregou-se inteirinha, em cada ossinho, cada carne, cada palavra que balbuciava, em cada bom dia, que era muito bom, sim, obrigada.
Quando se deu conta, esquecida da morte e dos desencontros que (também) retornariam amiúde, já estava nova de novo também, dançando a eterna e irresistível ciranda da fortuna.
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