Ó, meu benzinho, meus olhos e meu amor, eu acho mesmo que você devia era de se casar com eu
* porque, se vc quiser mesmo, eu vou te tirar dessas cidades cinzas, juro, e te devolver pro colorido das plantas, árvores, do sol, das nuvens etc;
* porque eu vou vou ganhar nosso dinheirinho, mas nem por isso vou deixar de cozinhar (e cozinhar uns vegetariano bem louco), fazer bolo, mousse de limão, beijinho, sonho de valsa e, sobretudo, limonada, claro!;
* porque, já que eu nasci pra te dedicar minha vida mesmo, melhor dedicar direito, você não acha?
* porque, eu já te disse, amor de poeta é diferente desses aí que vc já viu antes;
* porque meu coração é seu lar, e não qualquer outra casa que está à venda, com placa de imobiliária...
* porque eu tô me cuidando de corpo e alma, só pra vc me querer... tô cuidando das espinhas, das minhas costas, dos probleminhas que a velhice vai começando a apontar, e também tô cuidando do meu humor, da minha maturidade, da sabedoria;
* porque, repito, tô cuidando do dinheiro e dos empregos e tals;
* porque eu decorei um milhão de poemas e de canções pra te cantar, além do que a Poesia ainda reserva pra eu escrever só pra vc;
* porque eu paro de roncar, se vc quiser, e, se eu não conseguir, eu paro de dormir e fico só te contemplando toda noite;
* porque a gente ainda precisa fazer aula de dança;
* porque cabe piano em casa, viu, e a gente leva o seu... vc nem sabe! tô virando homem e forte! se não tiver outro jeito, eu ponho ele nas costas e vamo que vamo!
* porque a gente nem vai ter vizinho chato por perto;
* porque a gente vai poder contar estrela de noite, toda noite;
* porque vai ter mordedor em casa, além das minhas pernas;
* porque vai ter limoeiro, borboleta e joaninha;
* porque é claro que vai ter muito metro de cão te esperando;
* porque, enfim, estou inteiro entregue e rendido
* e porque vc também nasceu pra felicidade.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
sexta-feira, 25 de julho de 2008
O exercício da liberdade
"Tinha tornado a pôr a mão na minha mão, no começo de falar, e que depois tirou; e se espaçou de mim. Mas nunca eu senti que ele estivesse melhor e perto, pelo quanto da voz, duma voz mesmo repassada. Coração - isto é, este pormenores todos. Foi um esclaro. O amor, já de si, é algum arrependimento. Abracei Diadorim, como as asas de todos os pássaros."
(Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas)
(Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas)
O exercício do estilhaçamento
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Drummond descobre tudo)
Villaça redescobre tudo:
arco estilístico cuja raiz obstinada é um sujeito de muitas faces, verdadeiro em todas e incompleto a cada uma.
O gauchismo não é apenas a face da insufici~encia, mas a certeza altiva da impossibilidade de administração das contradições.
Mundo de movimentos rápidos e de excessivos convites.
O que o termo "sombra" pudesse colher de sinistro do reino de Lúcifer, remontando à origem da maldição divina, fica amortecido na frase coloquial e na banalização do ser malgino promovida pelo termo "desses". Camaradagem irônica. Certa brejeirice de estilo.
A ciranda dos desejos, que num limite da imagem se prende atavicamente a um balé de faunos e ninfas no bosque mítico, é já o resultado cumulativo de sensações fundamente captadas. O ato de espiar e a cena espiada constituem uma metaforização do modo como se opõem a circunspecção paralisante do gauche e a dinâmica erótica dos homens e mulheres em pleno exercício "na vida".
A imaginação compensatória do inadaptado.
Falta de confiançano afirmar ou no negar categoricamente - hesitação que nunca chega a eliminar do horizonte o espectro dos valores absolutos.
Entre a sombra de onde espia e a luz azul da tarde.
Consciente da imagem pública em diálogo imediato coma confissão aberta de um cósmico abandono. Auto-suficiência plena, num nível, insuficiência abosluta, em outro.
A verdade íntima é a da carência, aqui expressa numa retomada profana da fala de Cristo.
Wisnik abre parênteses: O sacrifício do Filho no altar de um Deus que já não está lá.
O tom proibido das confissões diretas.
O ambiciosíssimo verso. O motivo da imensidão íntima se esborracha contra a superfície constrangedora dos dicionários de rimas e o chão pragmático da busca de soluções.
A virtual confissão tanto parece envergonhar o confessor quanto diminuir o confidente.
A recomposição da familiaridade é gaiata.
A alusão satânica também está fora de qualquer órbita romântica, conformada à prosa gasta em que já se reduziu a uma quase interjeição ("como o diabo!").
Humor irônico que, ao simular desfazer a melancolia, ainda mais a acentua.
O espelho partido.
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Drummond descobre tudo)
Villaça redescobre tudo:
arco estilístico cuja raiz obstinada é um sujeito de muitas faces, verdadeiro em todas e incompleto a cada uma.
O gauchismo não é apenas a face da insufici~encia, mas a certeza altiva da impossibilidade de administração das contradições.
Mundo de movimentos rápidos e de excessivos convites.
O que o termo "sombra" pudesse colher de sinistro do reino de Lúcifer, remontando à origem da maldição divina, fica amortecido na frase coloquial e na banalização do ser malgino promovida pelo termo "desses". Camaradagem irônica. Certa brejeirice de estilo.
A ciranda dos desejos, que num limite da imagem se prende atavicamente a um balé de faunos e ninfas no bosque mítico, é já o resultado cumulativo de sensações fundamente captadas. O ato de espiar e a cena espiada constituem uma metaforização do modo como se opõem a circunspecção paralisante do gauche e a dinâmica erótica dos homens e mulheres em pleno exercício "na vida".
A imaginação compensatória do inadaptado.
Falta de confiançano afirmar ou no negar categoricamente - hesitação que nunca chega a eliminar do horizonte o espectro dos valores absolutos.
Entre a sombra de onde espia e a luz azul da tarde.
Consciente da imagem pública em diálogo imediato coma confissão aberta de um cósmico abandono. Auto-suficiência plena, num nível, insuficiência abosluta, em outro.
A verdade íntima é a da carência, aqui expressa numa retomada profana da fala de Cristo.
Wisnik abre parênteses: O sacrifício do Filho no altar de um Deus que já não está lá.
O tom proibido das confissões diretas.
O ambiciosíssimo verso. O motivo da imensidão íntima se esborracha contra a superfície constrangedora dos dicionários de rimas e o chão pragmático da busca de soluções.
A virtual confissão tanto parece envergonhar o confessor quanto diminuir o confidente.
A recomposição da familiaridade é gaiata.
A alusão satânica também está fora de qualquer órbita romântica, conformada à prosa gasta em que já se reduziu a uma quase interjeição ("como o diabo!").
Humor irônico que, ao simular desfazer a melancolia, ainda mais a acentua.
O espelho partido.
O exercício da descritividade
Seu nome começa com "sim". Mas que ninguém se iluda: sua positividade inicial e seu tom afirmativo podem, pelas graças dos Céus e da Terra, se tensionar com a quinta menor no próximo compasso.
Tem as mãos mais lindas do mundo. Com elas, toca Villa-Lobos e também rock mela cueca, tipo Angra. Mas nem parece mela cueca, se ela toca. Porque as mãos dela, isso já é meio segredo, hein, inventam teclas que não existem nos teclados comuns. Oras bolas! Se não fosse assim, ninguém ficaria tão iluminado depois de ouvir ela tocando. Aliás, isso é um perigo danado... Com as mãos, ainda, ela lê cartas de tarot e mapas astrais. Me demorando nas mãos: elas também guardam em si o melhor cafuné e, se acompanhadas por outras mãos, são melhores que bengala branca ou varinha de condão de Santa Luzia.
Seus pezinhos, cheios de graça, parece mais é que flutuam por essas terras. Não se ouve seus passos, só se pressente. E ela caminha sempre de mansinho. Já adivinhou (mesmo em São Paulo) que a pressa não leva a lugar nenhum.
É pequenina, mas eu nunca vi ninguém maior. Se prolonga por todos os tempos e, igualmente, por todos os espaços.
Sabe muitas coisas. Das que importam, sabe todas - sabe tudo. Também nunca vi mulher tão mais inteligente. Por exemplo, se manifestado o apreço intuitivo pela letra X, ela já sabe que X é o desenho da Runa, que significa o presente e que contrai relações com “O enforcado”.
Tem lábios sensuais. Olhos-mel do melhor. Olhos em labareda. Tem uma pinta na parte superior da bochecha direita, que é um charme...
É gostosa. Tem o sol e tem a lua, Tem o medo e tem a rosa, Eu digo que ela é gostosa. Tem a noite e tem o dia, A poesia e tem a prosa, Eu digo que ela é gostosa. Tem a morte e tem o amor, E tem o mote e tem a glosa, Eu digo que ela é gostosa. Desfazendo a disjunção caduca e, a um só tempo, imatura, da “mãe” e da “prostituta”, da mulher pra casar e da mulher pra trepar, ela é inteira deliciosa. E, de novo, seu corpo, que podia parecer mirradinho, se agiganta no maior inconcebível.
No café da manhã, come lasanha. No almoço, come o que é possível um vegetariano comer. De noite, ela dorme.
Escreve, compõe e, agora, desenha.
Quer ser cabeleireira e pianista (de profissão), e fazer dança. É professora e pianista (de cheia mão).
Quer morar no campo. E há de.
Gosta, mais que tudo, de cães. Mas também sente imenso afeto pelo resto da natureza toda. Me incitou a paixão pelas árvores.
Sabe falar “pepino” em italiano e “morder”, em sânscrito. Sabe calar também.
É todas as musas juntas num só ser, incluindo a do Lenine, só precisa existir pra me completar, é segredo, é sagrada, é cada estrela no céu, cada flor no campo e cada letra no papel, é lua lua lua lua, Sol palavra danca lua, pluma tela pétala, meu bem, meu zen, meu mal etc etc... É tudo e é só por ela (não por bhakti-yoga, por flagelações ou por orações) que o mundo se dá ver na sua mais fina realidade.
Tem as mãos mais lindas do mundo. Com elas, toca Villa-Lobos e também rock mela cueca, tipo Angra. Mas nem parece mela cueca, se ela toca. Porque as mãos dela, isso já é meio segredo, hein, inventam teclas que não existem nos teclados comuns. Oras bolas! Se não fosse assim, ninguém ficaria tão iluminado depois de ouvir ela tocando. Aliás, isso é um perigo danado... Com as mãos, ainda, ela lê cartas de tarot e mapas astrais. Me demorando nas mãos: elas também guardam em si o melhor cafuné e, se acompanhadas por outras mãos, são melhores que bengala branca ou varinha de condão de Santa Luzia.
Seus pezinhos, cheios de graça, parece mais é que flutuam por essas terras. Não se ouve seus passos, só se pressente. E ela caminha sempre de mansinho. Já adivinhou (mesmo em São Paulo) que a pressa não leva a lugar nenhum.
É pequenina, mas eu nunca vi ninguém maior. Se prolonga por todos os tempos e, igualmente, por todos os espaços.
Sabe muitas coisas. Das que importam, sabe todas - sabe tudo. Também nunca vi mulher tão mais inteligente. Por exemplo, se manifestado o apreço intuitivo pela letra X, ela já sabe que X é o desenho da Runa, que significa o presente e que contrai relações com “O enforcado”.
Tem lábios sensuais. Olhos-mel do melhor. Olhos em labareda. Tem uma pinta na parte superior da bochecha direita, que é um charme...
É gostosa. Tem o sol e tem a lua, Tem o medo e tem a rosa, Eu digo que ela é gostosa. Tem a noite e tem o dia, A poesia e tem a prosa, Eu digo que ela é gostosa. Tem a morte e tem o amor, E tem o mote e tem a glosa, Eu digo que ela é gostosa. Desfazendo a disjunção caduca e, a um só tempo, imatura, da “mãe” e da “prostituta”, da mulher pra casar e da mulher pra trepar, ela é inteira deliciosa. E, de novo, seu corpo, que podia parecer mirradinho, se agiganta no maior inconcebível.
No café da manhã, come lasanha. No almoço, come o que é possível um vegetariano comer. De noite, ela dorme.
Escreve, compõe e, agora, desenha.
Quer ser cabeleireira e pianista (de profissão), e fazer dança. É professora e pianista (de cheia mão).
Quer morar no campo. E há de.
Gosta, mais que tudo, de cães. Mas também sente imenso afeto pelo resto da natureza toda. Me incitou a paixão pelas árvores.
Sabe falar “pepino” em italiano e “morder”, em sânscrito. Sabe calar também.
É todas as musas juntas num só ser, incluindo a do Lenine, só precisa existir pra me completar, é segredo, é sagrada, é cada estrela no céu, cada flor no campo e cada letra no papel, é lua lua lua lua, Sol palavra danca lua, pluma tela pétala, meu bem, meu zen, meu mal etc etc... É tudo e é só por ela (não por bhakti-yoga, por flagelações ou por orações) que o mundo se dá ver na sua mais fina realidade.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
O exercício sempre difícil e, por isso, reiterado do tempo
"Florentino Ariza lo escuchó sin pestañear. Luego miró por las ventanas el círculo
completo del cuadrante de la rosa náutica, el horizonte nítido, el cielo de diciembre sin una sola nube, las aguas navegables hasta siempre, y dijo:
-Sigamos derecho, derecho, derecho, otra vez hasta La Dorada.
Fermina Daza se estremeció, porque reconoció la antigua voz iluminada por la
gracia del Espíritu Santo, y miró al capitán: él era el destino. Pero el capitán no la vio, porque estaba anonadado por el tremendo poder de inspiración de Florentino Ariza.
-¿Lo dice en serio? -le preguntó.
-Desde que nací -dijo Florentino Ariza-, no he dicho una sola cosa que no sea en
serio.
El capitán miró a Fermina Daza y vio en sus pestañas los primeros destellos de
una escarcha invernal. Luego miró a Florentino Ariza, su dominio invencible, su amor impávido, y lo asustó la sospecha tardía de que es la vida, más que la muerte, la que no tiene límites.
-¿Y hasta cuándo cree usted que podemos seguir en este ir y venir del carajo? -le preguntó.
Florentino Ariza tenía la respuesta preparada desde hacía cincuenta y tres años,siete meses y once días con sus noches.
-Toda la vida -dijo".
(Gabriel García Marquez - "El amor en los tiempo del cólera")
completo del cuadrante de la rosa náutica, el horizonte nítido, el cielo de diciembre sin una sola nube, las aguas navegables hasta siempre, y dijo:
-Sigamos derecho, derecho, derecho, otra vez hasta La Dorada.
Fermina Daza se estremeció, porque reconoció la antigua voz iluminada por la
gracia del Espíritu Santo, y miró al capitán: él era el destino. Pero el capitán no la vio, porque estaba anonadado por el tremendo poder de inspiración de Florentino Ariza.
-¿Lo dice en serio? -le preguntó.
-Desde que nací -dijo Florentino Ariza-, no he dicho una sola cosa que no sea en
serio.
El capitán miró a Fermina Daza y vio en sus pestañas los primeros destellos de
una escarcha invernal. Luego miró a Florentino Ariza, su dominio invencible, su amor impávido, y lo asustó la sospecha tardía de que es la vida, más que la muerte, la que no tiene límites.
-¿Y hasta cuándo cree usted que podemos seguir en este ir y venir del carajo? -le preguntó.
Florentino Ariza tenía la respuesta preparada desde hacía cincuenta y tres años,siete meses y once días con sus noches.
-Toda la vida -dijo".
(Gabriel García Marquez - "El amor en los tiempo del cólera")
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