posso ouvir o vento passar
assistir à onda bater
mas o estrago que faz
a vida é curta pra ver
eu pensei que quando eu morrer
vou acordar para o tempo
e para o tempo parar.
um século, um mês
três vidas e mais
um passo
pra trás?
por que
será?
...
vou pensar.
como pode alguém sonhar
o que é impossível saber
não te dizer o que eu penso
já é pensar em dizer
e isso, eu vi, o vento leva!
não sei mas sinto que é como sonhar
que o esforço pra lembrar
é a vontade de esquecer
e isso por quê?
(diz mais)
ú
se a gente já não sabe mais
rir um do outro, meu bem
então o que resta é chorar
e talvez
se tem que durar
vem renascido o amor
bento de lágrimas.
um século, três,
se as vidas atrás são parte de nós
e como será?
o vento vai dizer lento o que virá
e se chover demais a gente vai saber,
claro de um trovão,
se alguém depois sorrir em paz.
(só de encontrar...)
("O vento" - Rodrigo Amarante)
(...)
A vida é mesmo coisa muito frágil
Uma bobagem, uma irrelevância
Diante da eternidade do amor de quem se ama
(...)
("Por onde andei" - Nando Reis)
terça-feira, 22 de abril de 2008
domingo, 20 de abril de 2008
O exercício romântico
(...)
Eu vim de um mundo levado
Misturado por inteiro
Fez o amor mais procurado
Que moeda, que dinheiro.
(...)
("Amor de violeiro" - Rolando Boldrin)
Eu vim de um mundo levado
Misturado por inteiro
Fez o amor mais procurado
Que moeda, que dinheiro.
(...)
("Amor de violeiro" - Rolando Boldrin)
sábado, 19 de abril de 2008
O exercício da generosidade
POR QUE EU FAÇO ÁRABE
(glosando Tivinho)
Quando fui explicar a Safa (professora de Língua Árabe) os motivos reais, embora incompletos, das minhas muitas faltas, ela se disponibilizou a me ajudar todas manhãs de segunda e quinta, desde às 7h da manhã.
Quando o Mamede (professor de Literatura e Língua Árabe) soube que era meu aniversário, ne segunda-feira, além de autografar o primeiro volume das 1001 noites (com que meus bons amigos me presenteariam), ele me deu o segundo volume.
A Safa, por sua vez, quando também soube do meu aniversário, resolveu me dar o livro que ela tinha traduzido do árabe: "A porta do sol".
No árabe, a gente aprende toda uma cultura especialíssima, mas qualquer coisa que se aprenda lá é só pretexto pra aprender a ser Humano.
(glosando Tivinho)
Quando fui explicar a Safa (professora de Língua Árabe) os motivos reais, embora incompletos, das minhas muitas faltas, ela se disponibilizou a me ajudar todas manhãs de segunda e quinta, desde às 7h da manhã.
Quando o Mamede (professor de Literatura e Língua Árabe) soube que era meu aniversário, ne segunda-feira, além de autografar o primeiro volume das 1001 noites (com que meus bons amigos me presenteariam), ele me deu o segundo volume.
A Safa, por sua vez, quando também soube do meu aniversário, resolveu me dar o livro que ela tinha traduzido do árabe: "A porta do sol".
No árabe, a gente aprende toda uma cultura especialíssima, mas qualquer coisa que se aprenda lá é só pretexto pra aprender a ser Humano.
sábado, 12 de abril de 2008
O exercício descartesiano
Zé Celso contava que, à época de confecção da bandeira nacional, apresentaram pro Marechal Deodoro o lema central: "Amor, ordem e progresso". Marechal Deodoro, com sua formação rigidamente cartesiana, tratou de rapidamente podar o amor da bandeira.
Bem, já vimos que, sem amor, não há progresso nem muito menos ordem possível.
Com amor, talvez também não haja. Mas que importa a ordem e o progresso quando se tem amor?
Bem, já vimos que, sem amor, não há progresso nem muito menos ordem possível.
Com amor, talvez também não haja. Mas que importa a ordem e o progresso quando se tem amor?
quarta-feira, 9 de abril de 2008
O exercício do corpo
Quando a energia voltar,
os relógios já não saberão de cronologia, saberão é de dança.
os relógios já não saberão de cronologia, saberão é de dança.
terça-feira, 8 de abril de 2008
O exercício da entrega (quase) desinteressada
(...)
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
("Amar"- Carlos Drummond)
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
("Amar"- Carlos Drummond)
O exercício do ser
Eu digo é uma coisa:
Há um poema do Drummond que é concluído assim:
"Amor é privilégio de maduros"
Numa entrevista, o próprio poeta, após encerrar a leitura do poema, apressadamente trata de retificá-lo: diz que amor não é propriamente privilégio de maduros, mas que o amor é apurado na madureza, pois "quem não amou na infância, nem na aolescência, nem quando adulto, não merece amar na velhice".
De modos que: pra ser amado, meu menino, não é preciso o menor esforço, não, não é necessária a menor luta, é mera questão de boa ou má fortuna.
Mas, pra amar...
é mister toda a labuta, toda a firmeza de caráter, toda a rigidez de conduta, toda a disciplina! é preciso merecer!
Amar é pra poucos!
Nesse mundão tem mais gente milionária do que gente amante!
E, de fato, em geral, as pessoas amadas não merecem o amor que se lhe dedicam...
Mas, quem ama, esse sim, é porque merece amar.
Há um poema do Drummond que é concluído assim:
"Amor é privilégio de maduros"
Numa entrevista, o próprio poeta, após encerrar a leitura do poema, apressadamente trata de retificá-lo: diz que amor não é propriamente privilégio de maduros, mas que o amor é apurado na madureza, pois "quem não amou na infância, nem na aolescência, nem quando adulto, não merece amar na velhice".
De modos que: pra ser amado, meu menino, não é preciso o menor esforço, não, não é necessária a menor luta, é mera questão de boa ou má fortuna.
Mas, pra amar...
é mister toda a labuta, toda a firmeza de caráter, toda a rigidez de conduta, toda a disciplina! é preciso merecer!
Amar é pra poucos!
Nesse mundão tem mais gente milionária do que gente amante!
E, de fato, em geral, as pessoas amadas não merecem o amor que se lhe dedicam...
Mas, quem ama, esse sim, é porque merece amar.
O exercício da maturidade
O AMOR ANTIGO
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o amor antigo, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
(Carlos Drummond)
no livro "Amar se aprende amando"
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o amor antigo, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
(Carlos Drummond)
no livro "Amar se aprende amando"
segunda-feira, 7 de abril de 2008
O exercício do desapego
BRISA
Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
(Manu Bandeira, claro!)
Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
(Manu Bandeira, claro!)
domingo, 6 de abril de 2008
O exercício das distâncias
No dia em que seu filhinho aniversariou naquele ano, a mãe não pôde ritualisticamente comemorar, como sempre, aquele dia especial, que de tanto motivo, tanto quebranto e tanto encanto tinha engordado a sua própria vida.
Não pôde gastar as economias que tinha reservado tão sofridamente para os presentes,
Não pôde reunir seus muitos ingredientes para assar o mais delicioso dos bolos,
Não pôde cozinhar a comida preferida dele,
Não pôde lavar suas roupas emporcalhadas de lama,
Não pôde arrumar sua bagunça,
Não pôde oferendar os beijos saudosos que há muito acumulava nos lábios,
Não pôde oferendar os abraços que há muito requentava nos braços,
Não pôde fazer um poema,
Não pôde compor uma canção,
Não pôde cantar "Parabéns" (nem em português, nem em inglês, nem em árabe),
Não pôde encher bexigas,
Não pôde contratar palhaços,
Não pôde agradecer à vida, à natureza ou a Deus.
Não pôde ligar,
Não pôde mandar e-mail, scrap, depoimento,
Não pôde assistir ao seu show em Campinas,
Não pôde sequer considerar que aquele dia era especial, deixando de lado os compromissos,
Não pôde, simplesmente, fazer nada.
Quando a noite desceu, a mãe, humildemente, como houvesse acabado a enregia da casa, acendeu uma vela, recolheu-se no quarto rebelde do filho sempre velado com esmero, deitou-se em sua cama - encolhida para preservar o lugar para o filhinho e encolhida pelo frio - e dormiu até seu despertador soar longe, no seu quarto, pontualmente, às 6h20m da manhã do dia seguinte.
Não pôde gastar as economias que tinha reservado tão sofridamente para os presentes,
Não pôde reunir seus muitos ingredientes para assar o mais delicioso dos bolos,
Não pôde cozinhar a comida preferida dele,
Não pôde lavar suas roupas emporcalhadas de lama,
Não pôde arrumar sua bagunça,
Não pôde oferendar os beijos saudosos que há muito acumulava nos lábios,
Não pôde oferendar os abraços que há muito requentava nos braços,
Não pôde fazer um poema,
Não pôde compor uma canção,
Não pôde cantar "Parabéns" (nem em português, nem em inglês, nem em árabe),
Não pôde encher bexigas,
Não pôde contratar palhaços,
Não pôde agradecer à vida, à natureza ou a Deus.
Não pôde ligar,
Não pôde mandar e-mail, scrap, depoimento,
Não pôde assistir ao seu show em Campinas,
Não pôde sequer considerar que aquele dia era especial, deixando de lado os compromissos,
Não pôde, simplesmente, fazer nada.
Quando a noite desceu, a mãe, humildemente, como houvesse acabado a enregia da casa, acendeu uma vela, recolheu-se no quarto rebelde do filho sempre velado com esmero, deitou-se em sua cama - encolhida para preservar o lugar para o filhinho e encolhida pelo frio - e dormiu até seu despertador soar longe, no seu quarto, pontualmente, às 6h20m da manhã do dia seguinte.
terça-feira, 1 de abril de 2008
O exercício da magia
Fábula do tempo em que as árvores andavam
(me alfabetizando com o Gabo)
Nenhum dos dois apaixonados poderia suspeitar, sob o aroma quente daquela tarde de abril, que aquela árvore que os aconchegava em sombras e silêncio retornaria 17 anos e meio depois, impondo-se austera ante uma tempestade pavorosa, debochando dos raios que se atiravam sobre ela.
Naquele tempo as árvores ainda andavam. Não tinham, então, despertado a fúria dos deuses com os futuros tormentos: desertavam lugares por causa do sol, por causa da chuva, por causa dos cães, por que a terra era fofa, por que a terra era arenosa, por que a terra era roxa, etc etc, levando consigo os passarinhos, as gentes e tudo o mais. Apesar de estabanadas, tinham tamanha liderança que acharam por bem tomar o rebanho do deus Pã. Seu rebanho era, como se sabe, de nuvens, de maneira que as árvores pretendiam tomar o espaço celestial, desabrigando os deuses, anjos, etc. Ocorre que a ninfa Eco sussurrou os detalhes do plano maligno das árvores e deus Pã pôde, a tempo, salvaguardar o mundo etéreo, castigando as árvores com raízes tão profundas que jamais conseguissem caminhar.
Todavia ocorre, na fábula, que a árvore, ainda livre, retornou a encontrá-los, Demétrio e Muriel, dissolvendo na água que há 7 meses não cessava de despencar, mas que despencava ainda mais violenta naquele fim de tarde. Por engenho da fortuna, ambos procuraram abrigo, na mesma árvore, na mesma hora. Como a chuva dificultasse a visão, eles não se reconheceram um ao outro nem à arvore. Isso é o que eles dizem, mas eu creio também que estavam, ambos, muito diferentes para se reconhecerem de imediato. Decorridos bons minutos, um dos raios desceu varrendo com fogo o que lhe atrapalhasse o caminho. O clarão incendiou as duas faces de luz e de pavor. Deixando entrever os escombros a que as histórias inevitavelmente reduzem o coração, pelas alterações que o galope do tempo provocou e, paradoxalmente, pelas raízes que tempestade nenhuma arrancou.
No instante do clarão, os olhos de Demétrio espantados ofereciam carinho, colo e chá contra a chuva. Muriel, percebendo, gritou entre os ruidosos trovões: - Que um raio me leve, mas nunca mais os seus braços! e saiu com tamanho ódio nos passos que a terra sacudida fez tremer casas e derrubar choupanas.
Demétrio permaneceu no exato mesmo lugar por 3 anos. A árvore o acompanhou resistente nos primeiros 2 anos, 4 meses e 8 dias, depois partiu, cansada da abnegação do moço e de seu silêncio. Demétrio sequer reparou que a árvore saíra! Permaneceu alheio a tudo de dentro como de fora. Houve quem veio lhe chamar para a vida novamente. Primeiro vieram os outdores, depois os amigos mais íntimos, até tiraram o Roberto Carlos dos navios pra fazer um show particular e especial só pro moço! veio também um guru, não teve jeito. Só regressou sabe-se lá de onde no terceiro ano sem qualquer razão explicável.
Intuiu que estava na hora de ter uma filha. Intuiu errado, pois que teve um filho: um assum preto, que cantava às 7h da manhã uma ária de Mozart; ao meio-dia e quarenta, Verdi, às 5h15m, o último movimento da 9ª de Beethoven e, nos desvairios da noite toda, Shöenberg. Nunca se soube bem como ele, virgem, pariu um pássaro. A verdade é que muita coisa a gente fica sem saber. O que se soube foi que os erros que ele cometeu grosseiramente há um bom tempo acabaram por revestir com um mármore firme e resplandescente a parte do coração de Muriel que lhe cabia - um mármore que pesava demasiado e doloridamente em seu peito frágil. De modo que, quando ela soube, em seu reforçado café-da-manhã, que Demétrio já estava há 9 meses no mesmo lugar em que ela lhe manifestou sua fúria, a notícia apenas quicou no mármore e seu perdeu por espirais, sem nunca atingir qualquer parte consciente ou inconsciente dela.
Era tamanho o assédio de homens e de homens bons que, a despeito do seu justificado temor, Muriel acabou se casando com um príncipe encantado altivo, num cavalo branco, que os levou para um outro reino.
Ela cuidava de seus porcos muito tranqüilamente, enquanto seu príncipe lhe dedicava poemas e limonadas. Demétrio, já pai, decidiu que procuraria sua bem-amada. Era bem tarde: ela estava num reino que só chegava com cavalos brancos. E ele não tinha cavalos brancos, apenas um filhote assum preto. Ele tardou mesmo pra saber de sua desventura, pois, quando não a encontrava, acreditava que era por ela ter ido ao mercado, ao restaurante ou fazer show.
Tentou os cruzamentos entre os cavalos mais claros do reino - só os genes mais escuros é que prevaleciam! Quando os alquimistas lhe contaram e provaram que o branco é a reunião de todas as cores, ficou fascinado e chorou de alegria. Tentou os cruzamentos entre cavalos e éguas das cores mais diversas. Ainda assim não obteve êxito. Pediu carona aos alquimistas que, além de saberem de todas as coisas do planeta, percorriam o mundo todo - haveriam de um dia chegar ao tal reino onde sua amada estava.
Zanzou por todos os mares e desertos da Terra, nem o menor rastro de sua bem-amada. Procurava ávido, a cada nova aldeia, as belezurinhas colecionadas e congraçadas em constelações na sua face bem amada. Sequer poeira cósmica do seu rastro havia... Nem estercos de cavalo branco. Nada, nada.
Às noites, recolhido em sua solidão, calculava qual deveria ter sido a quantidade de água, fogo, terra, ar e éter que Deus usara pra conseguir o milagre que perfaziam as tais belezurinhas. Cálculos vãos, pois que sempre faltava algo, por mais que adicionasse.
Completas 3 voltas ao mundo, ele se sentou ao pé daquela arvrinha e chorou.
Chorou tanto que fundou um lago... um riozinho... um oceano! O Oceano Pacífico, para os mais desavisados de sua origem. Pois bem, interrompeu seu choro apenas quando seu assum preto, desolado com sua solidão e a tristeza inconsolável de seu pai, não cantou à hora prevista. Interrompeu o choro de tristeza ainda mais funda e de medo do seu filho ter morrido. Não, mas quase. Após o alívio de reencontrar seu filho, de saber seus motivos e tudo mais, houve o silêncio no mundo inteiro. Por um instante, nenhuma onda sonora vibrou o ar. Ele só se apercebeu disso quando, no instante seguinte, ouviu o choro de sua bem-amada. Estava certo de que era o exato seu choro. E disse, muito resoluto e calmo: “Pro caralho, os cavalos brancos!”.
Sabia que o choro dela era contíguo ao dele, constituindo a outra parte do Oceano Pacífico. Atravessou, pois, o oceano em braçadas firmes, às vezes com a ajuda das tartarugas, das baleias, até mesmo das sereias (que logo ficaram sabendo da linda fábula e se apiedaram do moço). Apenas uma observação: apesar da idade já avançada, Demétrio era ainda bem moço. Enquanto Muriel, a bela entre as belas, já não estava mais tão moça assim.
Sempre guiado pelas correntes plangentes que abriam, no oceano, o choro dolorido, ele alcançou sua bem-amada. Que não chorava senão a morte do seu marido.
Após permitir de todo que a pontinha do ciúme mais pungente inoculasse seu último calor, Demétrio duvidou do que, após tanto tempo (agora, inumerável), amava. Mas não tardou em lhe dar, sem oferecer, o colo, o carinho e o chá suspensos no tempo.
Achou muito estranho que ela chorasse a falta de uma pessoa. Não que as pessoas não fizessem falta pra Muriel, mas provavelmente ela não deixaria a falta cair em lágrimas. Em verdade, achava muita coisa muito estranha.
Encontrou os porquinhos desgrenhados e famintos, deu-lhes de comer. Os poemas, não sabia fazer. A limonada, achou melhor não arriscar. Tratou de seduzi-la com as novas coisas que havia aprendido pelos descaminhos: tirava joaninhas dos bolsos dela, soprava borboletas, pintava arco-íris com água e luz, compunha fábulas amorosas, engolia fogo, etc... Arrolou muita calma pra descobrir qual era, afinal, a vida que tinha desbragadamente depositado nos braços de sua bem-amada e quem era, agora, a sua bem-amada.
Como já estava mais velhinha, deixou as fórmulas alquimistas dele dissolveram o mármore dos tamanhos erros antigos, sem segredar suas concessões. Só não se sentia muito bem em acompanhar um homem ainda tão, jovem robusto. Em pouco tempo, perdeu seu recato e entregou-se inteirinha, em cada ossinho, cada carne, cada palavra que balbuciava, em cada bom dia, que era muito bom, sim, obrigada.
Quando se deu conta, esquecida da morte e dos desencontros que (também) retornariam amiúde, já estava nova de novo também, dançando a eterna e irresistível ciranda da fortuna.
(me alfabetizando com o Gabo)
Nenhum dos dois apaixonados poderia suspeitar, sob o aroma quente daquela tarde de abril, que aquela árvore que os aconchegava em sombras e silêncio retornaria 17 anos e meio depois, impondo-se austera ante uma tempestade pavorosa, debochando dos raios que se atiravam sobre ela.
Naquele tempo as árvores ainda andavam. Não tinham, então, despertado a fúria dos deuses com os futuros tormentos: desertavam lugares por causa do sol, por causa da chuva, por causa dos cães, por que a terra era fofa, por que a terra era arenosa, por que a terra era roxa, etc etc, levando consigo os passarinhos, as gentes e tudo o mais. Apesar de estabanadas, tinham tamanha liderança que acharam por bem tomar o rebanho do deus Pã. Seu rebanho era, como se sabe, de nuvens, de maneira que as árvores pretendiam tomar o espaço celestial, desabrigando os deuses, anjos, etc. Ocorre que a ninfa Eco sussurrou os detalhes do plano maligno das árvores e deus Pã pôde, a tempo, salvaguardar o mundo etéreo, castigando as árvores com raízes tão profundas que jamais conseguissem caminhar.
Todavia ocorre, na fábula, que a árvore, ainda livre, retornou a encontrá-los, Demétrio e Muriel, dissolvendo na água que há 7 meses não cessava de despencar, mas que despencava ainda mais violenta naquele fim de tarde. Por engenho da fortuna, ambos procuraram abrigo, na mesma árvore, na mesma hora. Como a chuva dificultasse a visão, eles não se reconheceram um ao outro nem à arvore. Isso é o que eles dizem, mas eu creio também que estavam, ambos, muito diferentes para se reconhecerem de imediato. Decorridos bons minutos, um dos raios desceu varrendo com fogo o que lhe atrapalhasse o caminho. O clarão incendiou as duas faces de luz e de pavor. Deixando entrever os escombros a que as histórias inevitavelmente reduzem o coração, pelas alterações que o galope do tempo provocou e, paradoxalmente, pelas raízes que tempestade nenhuma arrancou.
No instante do clarão, os olhos de Demétrio espantados ofereciam carinho, colo e chá contra a chuva. Muriel, percebendo, gritou entre os ruidosos trovões: - Que um raio me leve, mas nunca mais os seus braços! e saiu com tamanho ódio nos passos que a terra sacudida fez tremer casas e derrubar choupanas.
Demétrio permaneceu no exato mesmo lugar por 3 anos. A árvore o acompanhou resistente nos primeiros 2 anos, 4 meses e 8 dias, depois partiu, cansada da abnegação do moço e de seu silêncio. Demétrio sequer reparou que a árvore saíra! Permaneceu alheio a tudo de dentro como de fora. Houve quem veio lhe chamar para a vida novamente. Primeiro vieram os outdores, depois os amigos mais íntimos, até tiraram o Roberto Carlos dos navios pra fazer um show particular e especial só pro moço! veio também um guru, não teve jeito. Só regressou sabe-se lá de onde no terceiro ano sem qualquer razão explicável.
Intuiu que estava na hora de ter uma filha. Intuiu errado, pois que teve um filho: um assum preto, que cantava às 7h da manhã uma ária de Mozart; ao meio-dia e quarenta, Verdi, às 5h15m, o último movimento da 9ª de Beethoven e, nos desvairios da noite toda, Shöenberg. Nunca se soube bem como ele, virgem, pariu um pássaro. A verdade é que muita coisa a gente fica sem saber. O que se soube foi que os erros que ele cometeu grosseiramente há um bom tempo acabaram por revestir com um mármore firme e resplandescente a parte do coração de Muriel que lhe cabia - um mármore que pesava demasiado e doloridamente em seu peito frágil. De modo que, quando ela soube, em seu reforçado café-da-manhã, que Demétrio já estava há 9 meses no mesmo lugar em que ela lhe manifestou sua fúria, a notícia apenas quicou no mármore e seu perdeu por espirais, sem nunca atingir qualquer parte consciente ou inconsciente dela.
Era tamanho o assédio de homens e de homens bons que, a despeito do seu justificado temor, Muriel acabou se casando com um príncipe encantado altivo, num cavalo branco, que os levou para um outro reino.
Ela cuidava de seus porcos muito tranqüilamente, enquanto seu príncipe lhe dedicava poemas e limonadas. Demétrio, já pai, decidiu que procuraria sua bem-amada. Era bem tarde: ela estava num reino que só chegava com cavalos brancos. E ele não tinha cavalos brancos, apenas um filhote assum preto. Ele tardou mesmo pra saber de sua desventura, pois, quando não a encontrava, acreditava que era por ela ter ido ao mercado, ao restaurante ou fazer show.
Tentou os cruzamentos entre os cavalos mais claros do reino - só os genes mais escuros é que prevaleciam! Quando os alquimistas lhe contaram e provaram que o branco é a reunião de todas as cores, ficou fascinado e chorou de alegria. Tentou os cruzamentos entre cavalos e éguas das cores mais diversas. Ainda assim não obteve êxito. Pediu carona aos alquimistas que, além de saberem de todas as coisas do planeta, percorriam o mundo todo - haveriam de um dia chegar ao tal reino onde sua amada estava.
Zanzou por todos os mares e desertos da Terra, nem o menor rastro de sua bem-amada. Procurava ávido, a cada nova aldeia, as belezurinhas colecionadas e congraçadas em constelações na sua face bem amada. Sequer poeira cósmica do seu rastro havia... Nem estercos de cavalo branco. Nada, nada.
Às noites, recolhido em sua solidão, calculava qual deveria ter sido a quantidade de água, fogo, terra, ar e éter que Deus usara pra conseguir o milagre que perfaziam as tais belezurinhas. Cálculos vãos, pois que sempre faltava algo, por mais que adicionasse.
Completas 3 voltas ao mundo, ele se sentou ao pé daquela arvrinha e chorou.
Chorou tanto que fundou um lago... um riozinho... um oceano! O Oceano Pacífico, para os mais desavisados de sua origem. Pois bem, interrompeu seu choro apenas quando seu assum preto, desolado com sua solidão e a tristeza inconsolável de seu pai, não cantou à hora prevista. Interrompeu o choro de tristeza ainda mais funda e de medo do seu filho ter morrido. Não, mas quase. Após o alívio de reencontrar seu filho, de saber seus motivos e tudo mais, houve o silêncio no mundo inteiro. Por um instante, nenhuma onda sonora vibrou o ar. Ele só se apercebeu disso quando, no instante seguinte, ouviu o choro de sua bem-amada. Estava certo de que era o exato seu choro. E disse, muito resoluto e calmo: “Pro caralho, os cavalos brancos!”.
Sabia que o choro dela era contíguo ao dele, constituindo a outra parte do Oceano Pacífico. Atravessou, pois, o oceano em braçadas firmes, às vezes com a ajuda das tartarugas, das baleias, até mesmo das sereias (que logo ficaram sabendo da linda fábula e se apiedaram do moço). Apenas uma observação: apesar da idade já avançada, Demétrio era ainda bem moço. Enquanto Muriel, a bela entre as belas, já não estava mais tão moça assim.
Sempre guiado pelas correntes plangentes que abriam, no oceano, o choro dolorido, ele alcançou sua bem-amada. Que não chorava senão a morte do seu marido.
Após permitir de todo que a pontinha do ciúme mais pungente inoculasse seu último calor, Demétrio duvidou do que, após tanto tempo (agora, inumerável), amava. Mas não tardou em lhe dar, sem oferecer, o colo, o carinho e o chá suspensos no tempo.
Achou muito estranho que ela chorasse a falta de uma pessoa. Não que as pessoas não fizessem falta pra Muriel, mas provavelmente ela não deixaria a falta cair em lágrimas. Em verdade, achava muita coisa muito estranha.
Encontrou os porquinhos desgrenhados e famintos, deu-lhes de comer. Os poemas, não sabia fazer. A limonada, achou melhor não arriscar. Tratou de seduzi-la com as novas coisas que havia aprendido pelos descaminhos: tirava joaninhas dos bolsos dela, soprava borboletas, pintava arco-íris com água e luz, compunha fábulas amorosas, engolia fogo, etc... Arrolou muita calma pra descobrir qual era, afinal, a vida que tinha desbragadamente depositado nos braços de sua bem-amada e quem era, agora, a sua bem-amada.
Como já estava mais velhinha, deixou as fórmulas alquimistas dele dissolveram o mármore dos tamanhos erros antigos, sem segredar suas concessões. Só não se sentia muito bem em acompanhar um homem ainda tão, jovem robusto. Em pouco tempo, perdeu seu recato e entregou-se inteirinha, em cada ossinho, cada carne, cada palavra que balbuciava, em cada bom dia, que era muito bom, sim, obrigada.
Quando se deu conta, esquecida da morte e dos desencontros que (também) retornariam amiúde, já estava nova de novo também, dançando a eterna e irresistível ciranda da fortuna.
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