sábado, 10 de maio de 2008

O exercício da narratividade

TAJ MAHAL

Foi a mais linda história de amor
Que me contaram e agora eu vou contar
Do amor do principe Xá-Jehan
Pela princesa Nunts Mahal
Dê, dê, dêdêredê
Dê, dê, dêdêredê
Dê, dê
Taj Mahal
Taj Mahal

(Jorge Ben Jor)

obs: claro que é preciso ouvir a música!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O exercício do refazimento

DESNREDO

Do narrador a seus ouvintes:

- Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro da cerveja. Tinha o para não ser célebre. Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir, e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irvília, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.

- Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jô Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas muito tendo tudo de ser secreto, claro coberto de sete capas.

Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.

Não se via quando e como se viam. Jô Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.

Até que veio o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o Diz-se, também, que de leve a ferira, leviano modo.

Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudopersonagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.

Ela - longe – sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.

Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.

Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou – ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.

Mas.

Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam. Deu-se a entrada dos demônios.

Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou fugida a mulher, a desconhecido destino.

Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.

Mais.

No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade – idéia inata. Entregou-se e remir, redimir a mulher, à conta inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar.de sofrer e amar, a gente não se desafaz.ele queria apenas os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.

Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois.disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como refritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.

O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial operava o passado – plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?

Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar – e qualquer causa se irrefuta.
Pois, produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.

Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.

Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retornaram-se, e, conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.E pôs-se a fábula em ata.

(Guimarães Rosa - Tutaméia)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O exercício da auto-negação

UM CANCERIANO SEM LAR

Estou sentado em minha cama
Tomando meu café prá fumar
Trancado dentro de mim mesmo
Eu sou um canceriano sem lar

Estou sentado em minha cama
Tomando meu café prá fumar
É, é, porém, mas, todavia
Eu sou um canceriano sem lar

Eu tomo café pra mim não chorar
Pergunto à nuvem preta quando o sol vai brilhar

Estou deitado em minha vida
E o soro que me induz a lutar
Estou na Clínica Tobias
Tão longe do aconchego do lar

All right, man
Play the blues
Clínica Tobias Blues

(Raulzito)

EXCERTO DO "HORÓSCOPO DO MAL":

Câncer (21 de junho a 21 de julho)

Você é um chorão desgraçado, e as pessoas que convivem com você são
obrigadas a ficar agüentando você reclamar da sua vida. Você se acha
solidário e compreensivo com os problemas dos outros, o que faz de você um baba-ovo e puxa-saco. O que você quer mesmo é ficar "bem na fita". Você só quer saber de se dar bem, custe o que custar, e acaba sempre ficando numa boa, apesar de não valer nada. É, na verdade, um canalha com cara de santo. Quando pressionado você faz chantagem emocional. Chora e faz da sua vida a pior de todas. Por isso, os outros signos do zodíaco nunca desconfiam de você. E o pior é que todos gostam de você.

(um sábio muito sábio)


Não é em vão que o signo de câncer tem o nome que tem... As palavras sempre sábias sempre dizem mais do que parecem dizer à princípio...
Câncer é um mal! Uma praga!
É verdade que são sensíveis, mas fazem da maior das sensibilidades uma arma!
Eu nunquinha confio num canceriano e recomendo que ninguém confie também.
Também é verdade que os cancerianos não costumam ter outra arma... Mas amor não deiva nunca de virar uma arma. Mas vira... Voluntária ou involuntariamente.
Eu coloquei a música do Raulzito só pra mostrar minha indignação com alguém orgulhoso de ser canceriano. Orgulhoso a ponto de escancarar no título de uma canção popular.
Ah! Importantíssimo notar que, se o signo da pessoa for Áries e o ascendente, Câncer (como é o caso de alguns poetas blogueiros), dá na mesma merda!
Por fim, importantíssimo notar que esse post não passa de falta de caráter também, querendo angariar "lares".

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O exercício da resignação

"Eu juro, eu te amo desde que eu nasri"

(Nando Reis)