Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Drummond descobre tudo)
Villaça redescobre tudo:
arco estilístico cuja raiz obstinada é um sujeito de muitas faces, verdadeiro em todas e incompleto a cada uma.
O gauchismo não é apenas a face da insufici~encia, mas a certeza altiva da impossibilidade de administração das contradições.
Mundo de movimentos rápidos e de excessivos convites.
O que o termo "sombra" pudesse colher de sinistro do reino de Lúcifer, remontando à origem da maldição divina, fica amortecido na frase coloquial e na banalização do ser malgino promovida pelo termo "desses". Camaradagem irônica. Certa brejeirice de estilo.
A ciranda dos desejos, que num limite da imagem se prende atavicamente a um balé de faunos e ninfas no bosque mítico, é já o resultado cumulativo de sensações fundamente captadas. O ato de espiar e a cena espiada constituem uma metaforização do modo como se opõem a circunspecção paralisante do gauche e a dinâmica erótica dos homens e mulheres em pleno exercício "na vida".
A imaginação compensatória do inadaptado.
Falta de confiançano afirmar ou no negar categoricamente - hesitação que nunca chega a eliminar do horizonte o espectro dos valores absolutos.
Entre a sombra de onde espia e a luz azul da tarde.
Consciente da imagem pública em diálogo imediato coma confissão aberta de um cósmico abandono. Auto-suficiência plena, num nível, insuficiência abosluta, em outro.
A verdade íntima é a da carência, aqui expressa numa retomada profana da fala de Cristo.
Wisnik abre parênteses: O sacrifício do Filho no altar de um Deus que já não está lá.
O tom proibido das confissões diretas.
O ambiciosíssimo verso. O motivo da imensidão íntima se esborracha contra a superfície constrangedora dos dicionários de rimas e o chão pragmático da busca de soluções.
A virtual confissão tanto parece envergonhar o confessor quanto diminuir o confidente.
A recomposição da familiaridade é gaiata.
A alusão satânica também está fora de qualquer órbita romântica, conformada à prosa gasta em que já se reduziu a uma quase interjeição ("como o diabo!").
Humor irônico que, ao simular desfazer a melancolia, ainda mais a acentua.
O espelho partido.
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