Fábula do tempo em que as árvores andavam
(me alfabetizando com o Gabo)
Nenhum dos dois apaixonados poderia suspeitar, sob o aroma quente daquela tarde de abril, que aquela árvore que os aconchegava em sombras e silêncio retornaria 17 anos e meio depois, impondo-se austera ante uma tempestade pavorosa, debochando dos raios que se atiravam sobre ela.
Naquele tempo as árvores ainda andavam. Não tinham, então, despertado a fúria dos deuses com os futuros tormentos: desertavam lugares por causa do sol, por causa da chuva, por causa dos cães, por que a terra era fofa, por que a terra era arenosa, por que a terra era roxa, etc etc, levando consigo os passarinhos, as gentes e tudo o mais. Apesar de estabanadas, tinham tamanha liderança que acharam por bem tomar o rebanho do deus Pã. Seu rebanho era, como se sabe, de nuvens, de maneira que as árvores pretendiam tomar o espaço celestial, desabrigando os deuses, anjos, etc. Ocorre que a ninfa Eco sussurrou os detalhes do plano maligno das árvores e deus Pã pôde, a tempo, salvaguardar o mundo etéreo, castigando as árvores com raízes tão profundas que jamais conseguissem caminhar.
Todavia ocorre, na fábula, que a árvore, ainda livre, retornou a encontrá-los, Demétrio e Muriel, dissolvendo na água que há 7 meses não cessava de despencar, mas que despencava ainda mais violenta naquele fim de tarde. Por engenho da fortuna, ambos procuraram abrigo, na mesma árvore, na mesma hora. Como a chuva dificultasse a visão, eles não se reconheceram um ao outro nem à arvore. Isso é o que eles dizem, mas eu creio também que estavam, ambos, muito diferentes para se reconhecerem de imediato. Decorridos bons minutos, um dos raios desceu varrendo com fogo o que lhe atrapalhasse o caminho. O clarão incendiou as duas faces de luz e de pavor. Deixando entrever os escombros a que as histórias inevitavelmente reduzem o coração, pelas alterações que o galope do tempo provocou e, paradoxalmente, pelas raízes que tempestade nenhuma arrancou.
No instante do clarão, os olhos de Demétrio espantados ofereciam carinho, colo e chá contra a chuva. Muriel, percebendo, gritou entre os ruidosos trovões: - Que um raio me leve, mas nunca mais os seus braços! e saiu com tamanho ódio nos passos que a terra sacudida fez tremer casas e derrubar choupanas.
Demétrio permaneceu no exato mesmo lugar por 3 anos. A árvore o acompanhou resistente nos primeiros 2 anos, 4 meses e 8 dias, depois partiu, cansada da abnegação do moço e de seu silêncio. Demétrio sequer reparou que a árvore saíra! Permaneceu alheio a tudo de dentro como de fora. Houve quem veio lhe chamar para a vida novamente. Primeiro vieram os outdores, depois os amigos mais íntimos, até tiraram o Roberto Carlos dos navios pra fazer um show particular e especial só pro moço! veio também um guru, não teve jeito. Só regressou sabe-se lá de onde no terceiro ano sem qualquer razão explicável.
Intuiu que estava na hora de ter uma filha. Intuiu errado, pois que teve um filho: um assum preto, que cantava às 7h da manhã uma ária de Mozart; ao meio-dia e quarenta, Verdi, às 5h15m, o último movimento da 9ª de Beethoven e, nos desvairios da noite toda, Shöenberg. Nunca se soube bem como ele, virgem, pariu um pássaro. A verdade é que muita coisa a gente fica sem saber. O que se soube foi que os erros que ele cometeu grosseiramente há um bom tempo acabaram por revestir com um mármore firme e resplandescente a parte do coração de Muriel que lhe cabia - um mármore que pesava demasiado e doloridamente em seu peito frágil. De modo que, quando ela soube, em seu reforçado café-da-manhã, que Demétrio já estava há 9 meses no mesmo lugar em que ela lhe manifestou sua fúria, a notícia apenas quicou no mármore e seu perdeu por espirais, sem nunca atingir qualquer parte consciente ou inconsciente dela.
Era tamanho o assédio de homens e de homens bons que, a despeito do seu justificado temor, Muriel acabou se casando com um príncipe encantado altivo, num cavalo branco, que os levou para um outro reino.
Ela cuidava de seus porcos muito tranqüilamente, enquanto seu príncipe lhe dedicava poemas e limonadas. Demétrio, já pai, decidiu que procuraria sua bem-amada. Era bem tarde: ela estava num reino que só chegava com cavalos brancos. E ele não tinha cavalos brancos, apenas um filhote assum preto. Ele tardou mesmo pra saber de sua desventura, pois, quando não a encontrava, acreditava que era por ela ter ido ao mercado, ao restaurante ou fazer show.
Tentou os cruzamentos entre os cavalos mais claros do reino - só os genes mais escuros é que prevaleciam! Quando os alquimistas lhe contaram e provaram que o branco é a reunião de todas as cores, ficou fascinado e chorou de alegria. Tentou os cruzamentos entre cavalos e éguas das cores mais diversas. Ainda assim não obteve êxito. Pediu carona aos alquimistas que, além de saberem de todas as coisas do planeta, percorriam o mundo todo - haveriam de um dia chegar ao tal reino onde sua amada estava.
Zanzou por todos os mares e desertos da Terra, nem o menor rastro de sua bem-amada. Procurava ávido, a cada nova aldeia, as belezurinhas colecionadas e congraçadas em constelações na sua face bem amada. Sequer poeira cósmica do seu rastro havia... Nem estercos de cavalo branco. Nada, nada.
Às noites, recolhido em sua solidão, calculava qual deveria ter sido a quantidade de água, fogo, terra, ar e éter que Deus usara pra conseguir o milagre que perfaziam as tais belezurinhas. Cálculos vãos, pois que sempre faltava algo, por mais que adicionasse.
Completas 3 voltas ao mundo, ele se sentou ao pé daquela arvrinha e chorou.
Chorou tanto que fundou um lago... um riozinho... um oceano! O Oceano Pacífico, para os mais desavisados de sua origem. Pois bem, interrompeu seu choro apenas quando seu assum preto, desolado com sua solidão e a tristeza inconsolável de seu pai, não cantou à hora prevista. Interrompeu o choro de tristeza ainda mais funda e de medo do seu filho ter morrido. Não, mas quase. Após o alívio de reencontrar seu filho, de saber seus motivos e tudo mais, houve o silêncio no mundo inteiro. Por um instante, nenhuma onda sonora vibrou o ar. Ele só se apercebeu disso quando, no instante seguinte, ouviu o choro de sua bem-amada. Estava certo de que era o exato seu choro. E disse, muito resoluto e calmo: “Pro caralho, os cavalos brancos!”.
Sabia que o choro dela era contíguo ao dele, constituindo a outra parte do Oceano Pacífico. Atravessou, pois, o oceano em braçadas firmes, às vezes com a ajuda das tartarugas, das baleias, até mesmo das sereias (que logo ficaram sabendo da linda fábula e se apiedaram do moço). Apenas uma observação: apesar da idade já avançada, Demétrio era ainda bem moço. Enquanto Muriel, a bela entre as belas, já não estava mais tão moça assim.
Sempre guiado pelas correntes plangentes que abriam, no oceano, o choro dolorido, ele alcançou sua bem-amada. Que não chorava senão a morte do seu marido.
Após permitir de todo que a pontinha do ciúme mais pungente inoculasse seu último calor, Demétrio duvidou do que, após tanto tempo (agora, inumerável), amava. Mas não tardou em lhe dar, sem oferecer, o colo, o carinho e o chá suspensos no tempo.
Achou muito estranho que ela chorasse a falta de uma pessoa. Não que as pessoas não fizessem falta pra Muriel, mas provavelmente ela não deixaria a falta cair em lágrimas. Em verdade, achava muita coisa muito estranha.
Encontrou os porquinhos desgrenhados e famintos, deu-lhes de comer. Os poemas, não sabia fazer. A limonada, achou melhor não arriscar. Tratou de seduzi-la com as novas coisas que havia aprendido pelos descaminhos: tirava joaninhas dos bolsos dela, soprava borboletas, pintava arco-íris com água e luz, compunha fábulas amorosas, engolia fogo, etc... Arrolou muita calma pra descobrir qual era, afinal, a vida que tinha desbragadamente depositado nos braços de sua bem-amada e quem era, agora, a sua bem-amada.
Como já estava mais velhinha, deixou as fórmulas alquimistas dele dissolveram o mármore dos tamanhos erros antigos, sem segredar suas concessões. Só não se sentia muito bem em acompanhar um homem ainda tão, jovem robusto. Em pouco tempo, perdeu seu recato e entregou-se inteirinha, em cada ossinho, cada carne, cada palavra que balbuciava, em cada bom dia, que era muito bom, sim, obrigada.
Quando se deu conta, esquecida da morte e dos desencontros que (também) retornariam amiúde, já estava nova de novo também, dançando a eterna e irresistível ciranda da fortuna.
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Um comentário:
Lindo! Lindo! Lindo! Três vezes são suficientes para expressar tamanha beleza? Não sei ainda se gosto mais do conto(posso chamar assim?) ou dos poemas...Gosto muito de você e ponto. Voltarei sempre sempre aqui.
Beijo garoto!
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