domingo, 6 de abril de 2008

O exercício das distâncias

No dia em que seu filhinho aniversariou naquele ano, a mãe não pôde ritualisticamente comemorar, como sempre, aquele dia especial, que de tanto motivo, tanto quebranto e tanto encanto tinha engordado a sua própria vida.
Não pôde gastar as economias que tinha reservado tão sofridamente para os presentes,
Não pôde reunir seus muitos ingredientes para assar o mais delicioso dos bolos,
Não pôde cozinhar a comida preferida dele,
Não pôde lavar suas roupas emporcalhadas de lama,
Não pôde arrumar sua bagunça,
Não pôde oferendar os beijos saudosos que há muito acumulava nos lábios,
Não pôde oferendar os abraços que há muito requentava nos braços,
Não pôde fazer um poema,
Não pôde compor uma canção,
Não pôde cantar "Parabéns" (nem em português, nem em inglês, nem em árabe),
Não pôde encher bexigas,
Não pôde contratar palhaços,
Não pôde agradecer à vida, à natureza ou a Deus.
Não pôde ligar,
Não pôde mandar e-mail, scrap, depoimento,
Não pôde assistir ao seu show em Campinas,
Não pôde sequer considerar que aquele dia era especial, deixando de lado os compromissos,
Não pôde, simplesmente, fazer nada.
Quando a noite desceu, a mãe, humildemente, como houvesse acabado a enregia da casa, acendeu uma vela, recolheu-se no quarto rebelde do filho sempre velado com esmero, deitou-se em sua cama - encolhida para preservar o lugar para o filhinho e encolhida pelo frio - e dormiu até seu despertador soar longe, no seu quarto, pontualmente, às 6h20m da manhã do dia seguinte.

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